Amr Nabil/AP
Amr Nabil/AP

'Partidos islâmicos representam melhor a mudança nos países árabes'

Para diretora da Casa Árabe de Madri, 'apenas o processo democrático pode enraizar direitos de igualdade'

Christina Stephano de Queiroz, do estadão.com.br,

25 de janeiro de 2012 | 19h47

SÃO PAULO - Desde que grupos políticos islâmicos passaram a despontar nas eleições realizadas em países árabes, como Egito e Tunísia, muito se falou sobre uma eventual radicalização religiosa dos novos governos e do risco de que as liberdades civis estariam ameaçadas. Uma voz dissonante dessa teoria, contudo, é a da diretora-geral da Casa Árabe de Madri, Gema Martín Muñoz.

 

Veja também:

linkONU pode votar resolução contra a Síria na próxima semana

linkEgípcios comemoram aniversário de levante

tabela ESPECIAL: Um ano de Primavera Árabe

 

Para ela, esses grupos - como a Irmandade Muçulmana e o Al-Nur, no Egito, e o Ennahda, na Tunísia - são os que melhor representam o anseio por mudanças na região. Gema, que é professora de Sociologia do Mundo Árabe e Islâmico da Universidad Autônoma de Madri, concedeu entrevista ao estadão.com.br da capital espanhola. Confira alguns trechos.

 

estadão.com.br: Quais são as diferenças entre os partidos políticos islâmicos que ganharam as eleições no Marrocos e na Tunísia?

 

Gema Martin Muñoz: Ambos são parte de um universo islâmico muito parecido, moderado e reformista, que há muito tempo defendem a reforma democrática e a participação dos seus partidos no processo. Além disso, identificam-se com o modelo turco do partido islâmico de Erdogan.

 

A diferença entre eles está no contexto político no qual se desenvolveram. O partido tunisiano Ennahda sofreu uma radical repressão durante a ditadura do (ex-presidente Zine el-Abdine) Ben Ali e só agora foi permitido de participar da esfera política e pública do país.

 

Já o Partido da Justiça e do Desenvolvimento, do Marrocos, é parte do pluripartidarismo existente no país há anos e nunca foi perseguido - ao contrário, sempre participou do sistema político marroquino, assim como outros. Para resumir, o Marrocos apostou na integração do islamismo no sistema político, enquanto o regime de Ben Ali foi uma ditadura que usou o "medo ao islamismo" como estratégia para perseguir o Ennahda, que era seu principal opositor. As diferenças entre os partidos se relacionam com questões políticas e não com o estatuto do islã nos países.

 

estadão.com.br: E no Egito? Quais seriam as particularidades dos partidos políticos islâmicos que venceram as eleições?

 

Gema Martin Muñoz: No Egito, o principal movimento islâmico é a Irmandade Muçulmana, parte da história contemporânea egípcia desde o começo do século XX. A Irmandade criou o Partido da Justiça e Liberdade para poder participar das eleições após a queda de Hosni Mubarak. Acredito que hoje é, sem dúvida, a força política mais bem organizada do país.

 

Recentemente, ocorreram divisões dentro do grupo, motivadas por uma nova geração, mais moderna e liberal, que formou novos partidos. Estes novos grupos devem desempenhar um papel importante no futuro do Egito.

 

estadão.com.br: Com a entrada de partidos políticos islâmicos no poder nos países árabes, a senhora acredita que haverá um retrocesso nas liberdades civis e na liberdade da mulher?

 

Gema Martin Muñoz: O fundamental é que o processo democrático avance, o que garantirá os direitos de todos os cidadãos. Como ocorre em todas as democracias do mundo, haverá diferenças no ambiente político e social conforme ganhem as eleições partidos conservadores ou progressistas. No entanto, acredito que os elementos fundamentais do estado de direito não estão em risco.

 

Somente o processo democrático pode enraizar os direitos de igualdade e isso é algo que não ocorre da noite para o dia, independente de quem governa. Não devemos pedir aos governos árabes que façam de um momento a outro o que nós (Ocidente) somente conseguimos fazer com o passar do tempo e a consolidação da democracia.

 

As possibilidades de "retrocesso", portanto, não se relacionam com a chegada de partidos islâmicos ao poder e sim com o risco de que o processo de transição democrática seja desrespeitado. Os protestos (do final de 2011) na praça Tahrir, no Cairo, não aconteceram devido ao sucesso eleitoral da Irmandade Muçulmana e sim porque a Junta Militar não deixa que o processo democrático avance da forma correta. Muitos sentem que a revolução está sendo roubada.

 

estadão.com.br: A chegada de partidos islâmicos ao poder nos países da Primavera Árabe tem alguma explicação em comum? Por que a população escolheu esses partidos para governar?

 

Gema Martin Muñoz: Porque são os partidos que representam a mudança. Os outros ou são ainda muito novos e precisam reforçar sua posição ou são partidos tradicionais que já não possuem credibilidade, pois demonstraram incapacidade para desafiar a ditadura. Inclusive alguns se deixaram seduzir por ela.

 

estadão.com.br: Na Síria, qual seria o peso dos partidos islâmicos no panorama político?

 

Gema Martin Muñoz: A Irmandade Muçulmana também teria um peso significativo no caso de uma transição democrática, porém o verdadeiro mapa político do país não será claro até a realização de eleições livres. Governada ou não por um partido islâmico, é essencial que a Síria alcance a democracia.

 

Isso é o que garantirá os direitos dos cidadãos. E será preciso respeitar a sua soberania popular, mesmo que o partido eleito não agrade o Ocidente.

 

estadão.com.br: Em que outros países árabes os partidos islâmicos devem ganhar mais peso no panorama político?

 

Gema Martin Muñoz: Somente a realização de eleições livres poderá determinar esse processo. Conforme as votações ocorram, será possível desenhar um mapa político. Como eu já disse, os partidos islâmicos são uma geração política que representa melhor a mudança e, portanto, tendem a ter mais peso no futuro dos governos democráticos dos países árabes.

 

Esses partidos serão mais pragmáticos e terão boas relações com o Ocidente, sempre que este respeite as soberanias nacionais e seja um verdadeiro aliado, sem intenções de dominação ou superioridade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.