Partidos se unem e evocam o fascismo

Legendas de Fini e Berlusconi dominam 43% do eleitorado

Gilles Lapouge*, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2009 | 00h00

Um novo partido italiano nascerá no domingo. E, no dia do nascimento, o Partido do Povo da Liberdade (PDL) vai se tornar o maior partido da Itália. Mas o início fulgurante não é uma façanha tão extraordinária. Na realidade, o PDL nascerá da fusão do Força Itália, partido do presidente Silvio Berlusconi, com a Aliança Nacional (AN), partido de Gianfranco Fini, aliado de Berlusconi. Juntas, as legendas constituem 43% do eleitorado.Como a AN já participa do governo de Berlusconi, será uma operação meramente formal? Não exatamente. É preciso lembrar que o partido de Fini surgiu sob o apadrinhamento "demoníaco" do Movimento Social Italiano (MSI), há cerca de 20 anos, como uma formação "neofascista", e pretendia retomar gloriosamente a tocha caída, há mais de meio século, das mãos de Mussolini. Na época, Fini era considerado um sujeito hediondo. Em seu primeiro mandato, Berlusconi chamou-o para sua equipe, recebendo por isso críticas ferozes. Em 1994, o Parlamento Europeu manifestou-se contra a presença de "neofascistas" no governo Berlusconi. Desde então, Fini percorreu um longo caminho até a decência e a honradez. Em maio de 2008, foi nomeado presidente da Câmara dos Deputados, tornando-se o terceiro político da cúpula do Estado. Também adquiriu respeitabilidade internacional a ponto de Israel conceder-lhe o título de "melhor amigo europeu do Estado Judeu". A Aliança Nacional é hoje uma formação de direita democrática e responsável. Deveríamos, então, alegrar-nos pelo fato de "neofascistas"terem abandonado seus sonhos extremistas? Gianfranco Fini garante que sua conversão à democracia é irreversível. "Quando deixamos o MSI, tínhamos a convicção de que jamais retornaríamos a ele", declarou recentemente. É preciso observar ainda que, para entrar no campo da democracia, Fini decidiu aliar-se a Berlusconi, que o apadrinhou. Ora, se Berlusconi não pode ser qualificado de fascista, é todavia um democrata de uma espécie peculiar. A melhor definição do presidente italiano é a do escritor Mario Vargas Llosa: "um caudilho democrata". Assim, a Itália será governada por um partido novinho em folha, que se chama Povo da Liberdade, dominado por dois homens: um "caudilho democrata" e um neofascista convertido às delícias da democracia. O PDL enviará ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, a maioria dos deputados italianos e se tornará o partido mais poderoso do grupo de deputados europeus de direita, o Partido Popular Europeu (PPE). "Nós nos tornaremos o partido de todos os italianos", afirmou Fini para celebrar a brilhante fusão entre ex-neofascistas, novos democratas, "caudilhos democratas" e "democratas caudilhescos". * Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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