Partidos têm posições unificadas, mas totalmente distintas

CENÁRIO: Paul Krugman / NYT

O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2015 | 02h05

Hillary Clinton anunciou oficialmente sua candidatura, o que não surpreende ninguém. Já sabemos o que nos espera: intermináveis tentativas de psicanalisar a candidata, de extrair um sentido profundo de tudo que ela falar ou deixar de falar a respeito do presidente Barack Obama, intermináveis tentativas de interpretar seu "posicionamento" no que se refere a uma ou outra questão.

Por favor, não deem importância a isso. A análise política com base em posições pessoais é sempre uma aventura duvidosa. Os que têm idade suficiente para lembrar das eleições de 2000, talvez se recordem também que nos garantiram que George W. Bush era um excelente sujeito, afável, que adotaria uma política moderada, bipartidária.

Em todo caso, nunca houve um momento na história dos EUA em que os supostos traços pessoais dos candidatos tiveram menos importância. Enquanto caminhamos para 2016, cada partido se apresenta bastante unido no que se refere a importantes questões políticas - ocorre que essas posições unificadas estão distantes umas das outras. O imenso fosso entre os partidos se refletirá nas posições políticas de quem indicarem e nas políticas adotadas pelo vencedor.

Por exemplo, todo democrata, se eleito, procurará manter os programas de seguro social em sua forma atual, preservando e ampliando, ao mesmo tempo, a Lei de Assistência Médica Acessível (Obamacare). Todo republicano procurará destruir o Obamacare, impor profundos cortes no Medicaid e, provavelmente, transformar o Medicare num sistema de cupons.

Todo democrata tentará preservar os aumentos de impostos sobre os americanos ricos, que entrou em vigor em 2013, e possivelmente procurará novos aumentos. Um republicano tentará reduzir os impostos, com enormes cortes nos programas de ajuda às famílias de baixa renda. Um democrata manterá a reforma financeira de 2010, que recentemente se mostrou muito mais eficaz do que os críticos sugeriam. Por outro lado, um republicano tentará revogá-la, eliminando tanto a proteção ao consumidor quanto a regulamentação adicional aplicada a instituições financeiras "sistemicamente importantes".

Como foi possível que os dois partidos adotassem posições tão divergentes ao longo do tempo? Os cientistas políticos sugerem que isso tem muito a ver com a desigualdade de renda. À medida que os ricos se tornavam mais ricos suas preferências em matéria de política deslocaram-se para a direita - e foram levando cada vez mais o Partido Republicano na mesma direção. Ao mesmo tempo, a influência exercida pelo capital financeiro sobre os democratas diminuiu e as grandes empresas de Wall Street, enfurecidas com as regulamentações e os aumentos de impostos, desertaram o partido.

Suponhamos que Hillary seja indicada pelo Partido Democrata. Podemos ter a certeza de que ela será acusada de falta de sinceridade, de não ser a figura progressista que afirma ser. Por outro lado, imaginemos que o indicado republicano seja um suposto moderado, como Jeb Bush ou Marco Rubio. Em ambos os casos podemos ter a certeza de que ouviremos muitos gurus políticos afirmar que o candidato não acredita em muitas coisas que diz. Mas, no caso deles, a falta de sinceridade será apresentada como uma virtude. Uma coisa é certa: os americanos terão de fazer uma escolha. Que vença o melhor partido. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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