Passado do papa torna-se tema de visita a Israel

Vaticano nega que Bento XVI tenha integrado a Juventude Nazista, mas volta atrás e diz que inscrição foi ?involuntária?

Daniela Kresch, TEL AVIV, O Estadao de S.Paulo

13 de maio de 2009 | 00h00

O segundo dia da histórica peregrinação do papa Bento XVI a Israel e aos territórios palestinos foi de mais polêmica e confusão quanto ao passado do pontífice. Quatro anos depois da consagração do papa como sucessor de João Paulo II, o porta-voz do Vaticano negou que ele tenha feito parte da Juventude Nazista, detalhe de sua biografia que o próprio Joseph Ratzinger, nascido na Alemanha, havia revelado. "O papa nunca fez parte da Juventude Hitlerista", afirmou o porta-voz da Santa Sé, reverendo Federico Lombardi, acrescentando que Bento XVI foi convocado apenas para servir numa unidade anti-aérea do Exército alemão, mas "não tinha absolutamente nada a ver com a Juventude Hitlerista e a ideologia nazista".Horas depois, em meio ao espanto causado entre os jornalistas que cobrem a visita do papa a Israel e à Cisjordânia, o Vaticano voltou atrás na afirmação e divulgou um comunicado admitindo que o papa "se envolveu involuntariamente com a Juventude Hitlerista, mas não teve participação ativa" no grupo. A breve e compulsória participação do pontífice na Juventude Hitlerista é citada como parte de sua biografia há anos e foi bastante divulgada na época da consagração do papa. O Vaticano nunca havia negado esse detalhe. As declarações foram feitas um dia depois da visita do papa ao Museu do Holocausto, em Jerusalém, que foi criticada pelo rabino-mor do museu, Israel Meir Lau, causando mal-estar entre a liderança judaica e o séquito do pontífice. O rabino afirmou que, em seu discurso, Bento XVI não se desculpou por seu passado no Exército alemão e não condenou veementemente quem nega a morte de 6 milhões de judeus durante nazismo. O tom supostamento "vago" do discurso foi destacado pelos jornais israelenses, que lembraram a revogação da excomunhão do bispo britânico Richard Williamson, para quem "só 300 mil judeus morreram no Holocausto", e a intenção de Bento XVI de beatificar o papa Pio XII, acusado por muitos de suposta omissão durante a 2ª Guerra. Apesar da tentativa de alguns formadores de opinião de minimizar a decepção, o líder do Parlamento israelense, Reuven Rivlin se juntou ao coro dos descontentes: "Ele veio como se fosse um historiador, alguém olhando do lado de fora coisas que não deveriam ter acontecido. Ele era um deles."No segundo dia da visita a Israel, Bento XVI evitou discursos polêmicos e enfatizou o caráter religioso e conciliatório de sua história visita à Terra Santa. Durante todo o dia, ele repetiu duas mensagens: a de que cristãos, judeus e muçulmanos dividem as mesmas raízes e a presença cristã no Oriente Médio é fundamental. De manhã, Bento XVI visitou a Cidade Velha de Jerusalém. Ele foi à Esplanada das Mesquitas (conhecida como Monte do Templo pelos judeus), terceiro lugar mais sagrado para o Islã, e entrou descalço no Domo da Rocha, de onde o Profeta Maomé teria subido aos céus. Ele apelou aos líderes palestinos que busquem a cooperação inter-religiosa. Depois, Bento XVI depositou um bilhete entre as pedras do Muro das Lamentações, local mais sagrado para o judaísmo. No bilhete, pediu ao "Deus de Abraão, Isaac e Jacó que leve sua paz à Terra Santa, ao Oriente Médio e a toda família humana".No ponto alto para os fiéis católicos, o papa rezou uma missa no Vale do Kidron, perto do Jardim do Getsêmane. Segundo a tradição cristã, foi lá que Jesus celebrou a Última Ceia. Milhares de peregrinos de todo o mundo participaram do evento, cercado pelo maior esquema de segurança da história de Israel. Na homília, o papa pediu a judeus, muçulmanos e cristãos que "promovam uma cultura de reconciliação e paz, mesmo que esse processo seja dolorosamente lento e seja qual for o peso das memórias do passado". "Não deve haver lugar nessas muralhas para estreiteza, discriminação, violência e injustiça", disse o pontífice.VERSÕESFederico LombardiPorta-voz da Santa Sé"O papa disse que nunca fez parte da Juventude Hitlerista, que foi um movimento de fanáticos voluntários. Ele nunca esteve nesse movimento de jovens ideologicamente ligados ao nazismo"Reuven RivlinLíder do Parlamento israelense"Ele veio como se fosse um historiador, alguém olhando do lado de fora coisas que não deveriam ter acontecido. Ele era um deles. Com o devido respeito à Santa Sé, nós não podemos ignorar abagagem que o papa carrega consigo"

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