Agustin Marcarian/REUTERS
Agustin Marcarian/REUTERS

Passageiro infectado com coronavírus falsificou documento para embarcar para a Argentina

Santiago Solans Portillo só confessou fraude ao desembarcar em Buenos Aires; país registra aumento vertiginoso de casos

Teo Armus, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2021 | 20h00

BUENOS AIRES - Poucas horas antes de embarcar num voo de volta para a Argentina no último sábado, 1, Santiago Solans Portillo recebeu uma notícia que parecia atrapalhar seus planos de viagem: seu teste de coronavírus dera positivo, dizem as autoridades.

Mas quando o jovem de 29 anos chegou ao aeroporto de Miami, não disse nada aos agentes da American Airlines que fizeram seu check-in e, em vez disso, apresentou um atestado médico que dizia que ele estava em condições de voar.

Foi só no dia seguinte, quando pousou em Buenos Aires e as autoridades de saúde mediram sua temperatura, constatando que ele estava com febre de 38,5 graus, que veio a confissão: ele provavelmente estava com covid-19 – e não deveria ter entrado no avião, para começo de conversa.

“Devido a esse comportamento irresponsável e egoísta, duzentas pessoas estão em risco, apesar de terem feito a coisa certa durante a viagem”, disse Florencia Carignano, principal autoridade de imigração da Argentina, a jornalistas nesta semana.

Assim como acontece em muitos outros países, a Argentina exige que os viajantes internacionais vindos dos Estados Unidos apresentem comprovante recente de recuperação da covid-19 ou um teste negativo para embarcar num voo. As fronteiras foram praticamente fechadas para quase qualquer pessoa, exceto cidadãos e residentes permanentes.

Os novos casos na Argentina dispararam nas últimas semanas, ultrapassando um total de 3 milhões e atingindo um recorde histórico no mês passado, enquanto os hospitais se esforçam para acomodar o influxo de pacientes de covid-19.

Mas, como em grande parte da América Latina, os esforços de vacinação foram paralisados – em grande medida devido à escassez de suprimentos, estocados em grande parte pelos Estados Unidos e outros países mais ricos. Cerca de 7 milhões de pessoas, ou 16% da população total, receberam pelo menos uma dose de vacina até 3 de maio, de acordo com dados do Washington Post.

Ansiosos e cansados de esperar, alguns argentinos ricos preferiram viajar rumo ao norte, voando para Miami para tomar vacinas. As autoridades disseram que Portillo, dono de uma empresa comercial de lavagem a pressão, foi um deles.

Não está claro se Portillo chegou a ser vacinado. Mas as autoridades argentinas dizem que, em algum momento no sábado, ele recebeu um atestado médico de uma clínica em Hollywood, Flórida, declarando que estava bem de saúde e podia viajar para o exterior.

Em entrevista a uma estação de rádio argentina esta semana, Juan Manuel Dragani, advogado em Buenos Aires que representa a clínica, insistiu que o certificado não era falsificado nem fraudulento e que fora emitido para o paciente de acordo com todas as diretrizes dos Estados Unidos.

“A responsabilidade direta é do acusado”, disse Dragani, observando que o único contato de Portillo com a clínica foi por meio de uma consulta de telessaúde.

Ainda assim, às 17h15 do sábado, Portillo recebeu um resultado de PCR afirmando que ele tinha testado positivo para o coronavírus, disseram as autoridades. Por volta da meia-noite, ele embarcou no voo AA921 da American Airlines e, na manhã de domingo, o avião – que transportava outros 258 passageiros e 12 tripulantes – pousou na Argentina.

Depois de confessar sua fraude, disseram as autoridades, ele foi preso e levado para um hotel sanitário em Buenos Aires – uma das várias instalações administradas pela cidade para abrigar viajantes vindos do exterior que foram colocados em quarentena.

Numa breve entrevista por telefone na terça-feira, 4, para o Clarín, o maior jornal da Argentina, Portillo disse que estava com febre e recebendo tratamento médico sob custódia.

Ele alegou que a reportagem anterior do jornal sobre seu caso era “tudo mentira” e se recusou a oferecer mais detalhes sem consultar seu advogado. (Naquela manhã, no entanto, os oficiais de justiça informaram que ele ainda não havia designado um advogado; o Washington Post não conseguiu entrar em contato com Portillo).

Carignano, a autoridade de imigração, disse que Portillo pode pegar entre 3 e 15 anos de prisão sob uma lei argentina que proíbe as pessoas de expor intencionalmente outras pessoas a doenças infecciosas. Ela observou que sua “situação judicial complicada” seria agravada se algum de seus companheiros de viagem desenvolvesse sintomas nos próximos dias.

Autoridades de saúde da cidade de Buenos Aires rastrearam até agora pelo menos 14 pessoas que estavam sentadas perto de Portillo no avião, ordenando-lhes que fiquem em quarentena por pelo menos sete dias, embora não esteja claro se alguma testou positivo para o vírus até agora.

Um juiz apreendeu o celular de Portillo para verificar quando exatamente ele recebeu o atestado médico e a que horas uma outra clínica em Miami o notificou de que ele tinha testado positivo para o vírus.

Carignano também disse que sua agência sancionaria e multaria a American Airlines por permitir que um doente embarcasse no voo, em violação às regras do país contra o coronavírus. A companhia aérea não respondeu imediatamente a um pedido de comentário do Post. / Tradução de Renato Prelorentzou

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