Andrius Sytas/Reuters
Andrius Sytas/Reuters

Passageiros de voo desviado na Belarus chegaram a temer por queda de avião

O opositor Roman Protasevich, de 26 anos, foi detido na chegada a Minsk; uma passageira contou que ele implorou a um comissário de bordo para não entregá-lo, mas o funcionário da Ryanair disse que legalmente eles não tinham escolha

Ruby Mellen / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 20h00

Mais de 120 passageiros partiram de Atenas, na Grécia, no domingo de manhã esperando pousar na Lituânia dentro de três horas. Mas a apenas poucos quilômetros da fronteira com a Lituânia, o Voo FR4978 da Ryanair foi desviado, virando para sudeste para fazer um pouso de emergência em Minsk, capital da Belarus.

Os passageiros a bordo descreveram o choque e a confusão enquanto o avião se afastava de seu destino sem esclarecer o porquê. “Todos nós no avião entramos em pânico porque pensamos que íamos cair”, disse à rede ABC News Raselle Grigoryeva, uma lituana de 37 anos que estava no avião. “Foi um mergulho repentino, alterando drasticamente a altitude. Foi muito violento. Nunca senti isso em um avião.”

O controle de tráfego aéreo belarusso disse à companhia Ryanair que havia uma ameaça de bomba a bordo, mas um jato de combate MiG-29 escoltou o Boeing 737-800 até o solo, onde um proeminente jornalista dissidente belarusso e sua namorada foram detidos.

Roman Protasevich, de 26 anos, que foi detido na chegada, pode pegar pelo menos 12 anos de prisão por usar seu blog de oposição, Nexta, para ajudar a mobilizar protestos de rua contra o governo autoritário do presidente da Belarus, Alexander Lukashenko.

Os que estavam no avião disseram que Protasevich pareceu assustado quando percebeu para onde o avião estava indo. Ele entrou em ação. Um passageiro disse que ele se levantou, pegou sua bagagem e começou a desmontar seu equipamento de computador, aparentemente na expectativa de ser detido. Outros disseram que ele temia por sua vida.

“Ele apenas se virou para as pessoas e disse que enfrentaria a pena de morte”, disse a passageira Monika Simkiene à agência de notícias France Presse. “Ele não estava gritando, mas estava claro que ele estava com muito medo. Parecia que se a janela estivesse aberta, ele teria pulado para fora dela”, disse outra passageira. 

De acordo com a história de Instagram de uma mulher a bordo, Protasevich implorou a um comissário de bordo para não entregá-lo. Mas o funcionário da Ryanair disse a ele que legalmente eles não tinham escolha.

Para o restante dos que estavam a bordo, uma provação de horas se seguiu, pois as autoridades do aeroporto, operando em resposta à suposta ameaça à segurança que havia impedido o avião, revistaram os corpos dos passageiros e a bagagem.

Eles tiveram de aguardar em uma pequena sala, sem nenhuma informação, acompanhando sobre a situação por meio de notícias em seus telefones. “Não sabíamos se íamos voar para casa naquele momento. Eles estavam nos mantendo como prisioneiros ”, disse Grigoryeva à ABC.

A aparente demonstração de poder autocrático por parte de Lukashenko, que o ministro irlandês das Relações Exteriores chamou de pirataria de aviação, gerou condenação internacional e acusações de sequestro patrocinado pelo Estado.

O avião pousou na Lituânia quase 12 horas após sua partida de Atenas, por volta das 21h30 (horário local). De acordo com a agência de notícias Reuters, a Ryanair disse que cinco dos passageiros permaneceram em Minsk.

O CEO da empresa, Michael O'Leary, disse à agência de notícias que acreditava que, além de Protasevich e sua namorada, agentes de segurança belarussos também estavam no avião.

“Acreditamos que alguns agentes da KGB também desembarcaram no aeroporto”, disse O'Leary à rádio irlandesa Newstalk nesta segunda-feira, 24, referindo-se à antiga polícia secreta soviética ainda ativa no país. 

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