Kenzo Tribouillard/AFP
Kenzo Tribouillard/AFP

Variante Ômicron frustra passageiros; ‘A primeira coisa que fiz foi começar a chorar’

Novas restrições já surtem efeitos em cadeia, à medida que os feriados de fim de ano se aproximam

Paulina Firozi e Brittany Shammas, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2021 | 10h00

Lauren Kennedy Brady aterrissou em Johannesburgo na sexta-feira e foi inundada por uma enxurrada de mensagens de textos e alertas de notícias. A veterana da Broadway e moradora da Carolina do Norte voltava para casa depois de 11 dias viajando pela África com a mãe, a filha e a sobrinha — uma jornada muito adiada pelo quarteto. Elas estavam na primeira etapa do que seria um trajeto com várias escalas entre Zâmbia e Raleigh. Tudo ia bem.

Mas ao navegar por seu telefone, Lauren, de 47 anos, soube que uma nova variante de coronavírus havia sido detectada na África do Sul. Pouco depois, as quatro se viram impedidas de viajar, suas reservas no voo seguinte haviam sido canceladas em meio às novas restrições.

“Até aquele momento, tudo parecia bem. Não havíamos tido nenhum problema durante a viagem. É claro que havia protocolos…mas o mundo em que vivemos agora é assim”, afirmou Lauren. “Então, o fato de isso ter acontecido em um intervalo de poucos minutos foi como se dissessem, ‘Podem parar bem aí’.”

As restrições para Lauren e sua família, assim como para muitas outras pessoas, ocorrem num momento em que vários governos se apressaram para restringir viagens, fechando suas fronteiras para países do sul da África em meio a preocupações a respeito da nova variante do coronavírus potencialmente perigosa, batizada de Ômicron. Essas mudanças nas regras já surtem efeitos em cadeia sobre viajantes, à medida que os feriados de fim de ano se aproximam.

Viajantes ficaram presos em países estrangeiros, tentando desesperadamente voltar para casa em meio a uma onda de cancelamentos, ao mesmo tempo em que outras pessoas cancelam planos de ver pessoas queridas em outros países — para muitos, apenas a mais recente de uma série de viagens frustradas pela pandemia, ocorrendo poucas semanas depois de os Estados Unidos suspenderem o banimento a visitantes de 33 países. Especialistas em medicina e transporte afirmam que as restrições podem dar tempo para que cientistas entendam melhor os perigos da nova variante, informações que permitirão aos viajantes determinar o quão dispostos estão em lidar com isso.

“Parecia que havíamos chegado ao fim de um longo e obscuro túnel”, afirmou Julian Harrison, proprietário da Premier Tours, uma agência de turismo com base da Filadélfia especializada em viagens para a África. “E começou tudo de novo, basicamente.”

Para muitos, as mais recentes restrições a viagens lembraram os primeiros dias da pandemia, quando fronteiras e aeroportos fecharam e voos foram cancelados da noite para o dia. Na esteira da descoberta da variante Ômicron, a União Europeia, os EUA e outros países mobilizaram-se para paralisar as viagens para a África do Sul e países próximos — banimentos a viagens que começariam a vigorar, em sua maioria, na segunda-feira, mesmo diante da condenação de autoridades africanas e alguns especialistas em saúde. Dois países foram além: Israel proibiu a entrada de todos os estrangeiros, e Marrocos anunciou a suspensão de todos os voos comerciais vindos de outros países por duas semanas.

Alguns países estão impondo novas exigências de testagens e quarentenas, acrescentando confusão a um momento em que muitos começavam a se sentir confiantes em relação a poder viajar novamente.

“As pessoas estão muito cansadas, querem que isso acabe logo”, afirmou David Freedman, presidente eleito da Sociedade Americana para Medicina Tropical e Higiene. “E acho que vamos ter de alcançar um equilíbrio em breve.”

Sean Park-Ross planejava viajar para a África do Sul para passar o Natal com a família e amigos — e depois soube das notícias a respeito da nova variante. Park-Ross, que viaja muito por causa de seu trabalho em desenvolvimento de softwares e atualmente está na Cidade do México, disse ter pensado que, mesmo se conseguir chegar à África do Sul, pode levar um tempo para que ele possa deixar o país.

A mãe dele está “superotimista e supercompreensiva”, apesar de seus parentes estarem “realmente na expectativa de me ver para passarmos uma boa temporada de Natal”, afirmou Park-Ross. Ele sente falta dos pais, na casa dos 70 anos, e do sobrinho de 5 anos.

“Não vejo eles há séculos, porque sempre estou viajando pelo mundo”, afirmou ele. “Isso é um saco.”

Lin Chen, diretora do Centro de Medicina do Transporte do Hospital Mount Auburn, em Cambridge, Massachusetts, afirmou que as restrições poderão não conter a variante, mas “provavelmente darão algum tempo para o mundo saber onde a Ômicron está presente e examinar suas características”.

“Dadas as preocupações, viajar para áreas sabidamente afetadas envolverá novas regras e inconveniências”, afirmou Chen por e-mail. Ela afirmou que os viajantes “precisam decidir se aceitam ou não esses desafios” ou se é “melhor esperar até que se saiba mais a respeito da Ômicron”.

Lauren descreveu uma cena caótica no aeroporto à medida que emergiam as notícias sobre a nova variante: filas gigantescas diante dos balcões de atendimento das empresas aéreas, com passageiros exigindo saber como conseguiriam chegar aos seus vários destinos fora da África do Sul. As pessoas lutavam contra o relógio, para serem as primeiras a falar com alguém.

“Fiquei em pânico porque havia um baita falatório em volta da gente”, afirmou Lauren, “e as pessoas só falavam tipo, ‘O que vamos fazer agora? O que vamos fazer agora?”.

Essa frustração foi sentida por muitos viajantes internacionais, muitos dos quais apenas recentemente haviam se sentido seguros novamente para voltar a viajar para o exterior.

A moradora de Johannesburgo Ayesha Shaw afirmou que pensava que “definitivamente, o pior já havia passado”, após a pandemia tê-la afastado por meses do namorado, que vive nos EUA. Ela tinha passagem num voo marcado para o sábado para ir vê-lo em Nova York e na sexta-feira ficou chocada com as notícias. Minutos após a 0h do sábado, ela recebeu um e-mail da Turkish Airlines: seu voo partindo de Johannesburgo havia sido cancelado.

“Eu estava tão cansada naquele ponto, tão exausta emocionalmente, que só quis ir para a cama dormir”, recordou-se a jovem de 28 anos. “Quando acordei, a primeira coisa que fiz foi chorar.”

Shaw também expressou frustração a respeito das restrições às viagens, notando que a medida foi desencorajada pela Organização Mundial da Saúde. Ela afirmou que seguiu todas as recomendações relativas ao coronavírus e se vacinou, acrescentando que “parece que mesmo quando seguimos direitinho todas as regras, ainda não podemos fazer as coisas que queremos”.

Lauren e a família conseguiram encontrar um hotel em Johannesburgo, onde conseguiram passar o domingo trancadas no quarto, evitando interagir com outras pessoas com medo da nova variante. Elas estavam em busca de outras maneiras de deixar o país, com ajuda de parentes nos EUA. Como cidadãs americanas, elas têm permissão para retornar ao seu país, mas enfrentam dificuldades para encontrar um voo que as leve de volta.

Por agora, Lauren coloca o foco nos aspectos positivos. “Estamos bem, estamos saudáveis e estamos juntas.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.