Passagens pelo governo dão a Zoellick visão privilegiada

Ao anunciar sua renúncia na manhã desta segunda-feira, o vice-secretário de Estado americano Robert Zoellick, de 52 anos, volta a direcionar sua carreira para a iniciativa privada, deixando um importante cargo na chancelaria dos Estados Unidos para retornar ao banco de investimento em que havia trabalhado na década de 1990. Ele será o novo diretor do grupo de consultores internacionais do Goldman Sachs, um dos mais importantes bancos de investimentos de Wall Street. Com uma extensa experiência como diplomata e funcionário do alto escalão do governo americano, Zoellick exercerá sua nova função de um lugar privilegiado. Afinal, suas passagens pelos departamentos de Estado e do Tesouro, além de um cargo na secretaria-geral da Casa Branca, renderam-lhe contatos dentro do aparelho de Estado americano que poucos puderam ter.Advogado formado pela Universidade de Harvard, Zoellick iniciou sua carreira como membro do alto escalão do governo americano em 1985, ao tornar-se funcionário do Departamento do Tesouro dos EUA, então dirigido por James Baker, um dos homens fortes do presidente Ronald Reagan (1981-89). Quando Baker tornou-se secretário de Estado, no governo de George Bush pai (1989-93), Zoellick passou a ser seu conselheiro de assuntos políticos, econômicos e de segurança para o mundo todo.Em 1992, Bush pai o nomeou secretário-geral-adjunto da Casa Branca. Durante o governo de Bill Clinton (1993-2001), no entanto, Zoellick foi para a iniciativa privada, quando tornou-se consultor para assuntos internacionais do Goldman Sachs.Em 2001, voltou a ocupar um cargo público, como secretário de Comércio dos EUA, até 2005. Neste ano, Zoellick assume o cargo de vice-secretário de Estado americano.Como secretário de Comércio, Zoellick - forte defensor do livre comércio - trabalhou para costurar acordos que pudessem suspender barreiras comerciais. Profundo conhecedor da América Latina, ele não conseguiu convencer os membros do Mercosul - grupo formado por Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina - a formarem junto com os Estados Unidos a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Teve sucesso, porém, em acordos de livre comércio com o Chile e países centro-americanos. "Sub do sub"Foi durante esse período, inclusive, que Zoellick ficou conhecido no Brasil. Isso porque, antes de vencer as eleições de 2002, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve um atrito com ele por causa da rejeição do Partido dos Trabalhadores aos termos de negociação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Em entrevista ao jornal americano The Miami Herald, Zoellick afirmou que as opções do Brasil para acordos comerciais eram a Alca ou a Antártida - onde simplesmente não há o que negociar. O então candidato Lula classificou as declarações de Zoellick como um desatino. "Tem muita gente que fala bobagem a respeito do Brasil e, se Deus quiser, vão passar a respeitar o País daqui para frente", disse Lula. "O Brasil merece respeito, é soberano e não podem ficar dando palpites sobre as posições do partido (dos Trabalhadores). Queremos salvaguardar os interesses de nossa indústria, da nossa agricultura. Queremos exportar mais, ter superávit comercial. Tudo o que eles querem nós queremos. E, por isso, vamos ter de negociar de acordo com nossos interesses, não de acordo com os interesses deles", completou Lula, depois de dizer que não responderia "ao sub do sub do subsecretário americano".Já como vice-secretário de Estado, Zollick foi o principal criador da política de Bush para o Sudão, em particular para crise humanitária que atinge a região de Darfur. Em Maio, ele voou para Abuja, na Nigéria, onde pressionou os líderes rebeldes de Darfur para assinar um acordo de paz.No mês passado, no entanto, fontes próximas a Zoellick disseram que ele vinha se sentindo marginalizado no Departamento de Estado, onde seus subordinados eram responsáveis pelos principais assuntos da pasta, incluindo questões relativas ao Irã, Iraque, Oriente Médio e Coréia do Norte.

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