Passando dos limites na Rússia

A agressiva propaganda contra a democracia e o Ocidente vem sendo elevada a nível de ideologia de Estado, orientando a política interna e externa

*ANDREI KOZYROV, THE WASHINGTON POST

07 Março 2015 | 02h02

No dia 27 o líder oposicionista e ex-primeiro-ministro russo Boris Nemtsov foi morto perto do Kremlin, sede do governo. Analistas independentes, políticos e milhares de pessoas que foram às ruas de Moscou e em outras cidades da Rússia para protestar não têm ilusões quanto aos motivos desse assassinato.

Grigori Yavlinski, líder do partido de oposição Yabloko e veterano dos movimentos pró-democracia, afirmou que "a responsabilidade política pelo assassinato é do regime e do presidente Vladimir Putin em pessoa - todos os que iniciaram e entraram na guerra (na Ucrânia) juntamente com a propaganda de ódio". Para a colunista e apresentadora de rádio Yulia Latynina, "entramos numa nova era - a da exterminação de opositores políticos do regime".

Radicalização. Sim, o assassinato de Nemtsov demarca de modo importante a degradação da política na Rússia, ligada organicamente à política externa russa. Duas tendências são particularmente alarmantes, especialmente quando consideramos o fato de a Rússia ser uma superpotência nuclear.

Em primeiro lugar, a agressiva propaganda contra a democracia e contra o Ocidente vem sendo elevada a nível de ideologia de Estado, orientando as políticas interna e externa da Rússia.

Não é somente o regime, mas todas as forças políticas e milícias que o apoiam são incentivadas a agir de acordo com essa doutrina. É possível que um fanático tenha acionado o gatilho da arma apontada contra Nemtsov.

Em segundo lugar, o recurso à violência pode ser identificado como uma tendência inequívoca e irreversível, que deve se tornar mais brutal e desenfreada no decorrer do tempo.

A anexação da Crimeia, no ano passado, foi elogiada pela propaganda russa por ter sido concluída praticamente sem derramamento de sangue -um referendo foi realizado entre a população local. A maioria é de origem russa e a separação foi sacramentada. Mas a destruição em massa e as mortes que acompanharam os avanços das forças pró-Rússia no leste da Ucrânia no posterior apoio ao separatismo da região de Donbass são aclamados quase em tempo real na TV estatal.

Yavlinski localizou corretamente o principal responsável político por essas tendências, mas é importante observar uma segunda fileira de forças que contribuem para o processo. São todos os tipos de colaboradores e facilitadores, alguns deles agindo intencionalmente e outros simplesmente por ingenuidade.

Teses. É deprimente precisar ouvir magnatas da mídia, jornalistas e diplomatas repetirem a mesma propaganda e os mesmos clichês sobre uma conspiração ocidental ou formularem comparações confusas da crise ucraniana com a divisão da Alemanha na Guerra Fria.

Eles e seus seguidores estrangeiros procuram justificar a covarde agressão e a guerra fratricida que observa-se hoje no território do país vizinho citando a ampliação da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) na década passada, negando, assim, o direito soberano de todas as nações do Leste Europeu de se unir à aliança militar de sua escolha.

Pressões. Também na mesma lista vergonhosa estão os mercenários da estatal russa de energia Gazprom e outros "amigos da Rússia" aposentados de chancelarias ocidentais, juntamente com os chamados "liberais do sistema" e os tecnocratas das camadas mais altas da burocracia em Moscou, que fingem que tudo está bem.

Os países do Ocidente não podem, e não devem, tentar interferir nos assuntos internos russos. Mas, ao mesmo tempo, têm o dever de defender seus valores e as obrigações determinadas pelo Direito internacional, incluindo a inviolabilidade das fronteiras e a integridade territorial, os direitos humanos e as liberdades democráticas.

E não se trata apenas de observar a firmeza na defesa desses valores e normas, mas de reverter sua falta, que provocará mais belicismo na Rússia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É EX-CHANCELER RUSSO (1990-1996)

Mais conteúdo sobre:
rússia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.