EFE/EPA/ERDEM SAHIN
EFE/EPA/ERDEM SAHIN

Passar colônia nas mãos, o hábito que ganhou a linha de frente no combate ao coronavírus na Turquia

Costume nacional é o novo aliado no combate a pandemia no país; especialista aponta que hábito é eficaz

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2020 | 08h01

ISTAMBUL - Na Turquia, passar colônia nas mãos é um gesto habitual em salões de beleza, restaurantes e até no transporte público. Símbolo de hospitalidade e higiene, o hábito nacional tem ganhado um significado especial desde o surgimento do coronavírus. Muitos turcos acreditam que a colônia, que tem um alto porcentual de álcool, protege do covid-19. A demanda pelo produto cresceu tanto que os produtores não estão dando conta de abastecer o mercado.

No começo de março, a medida que a epidemia se propagava, formavam-se longas filas diante das vendas de água-de-colônia no bazar de especiarias do distrito histórico de Istambul. Agora, quase no fim do mês, restam apenas letreiros que dizem: "esgotado".

A Eyüp Sabri Tuncer, um dos principais produtores de colônia na Turquia, disse que o grupo recebeu dezenas de milhares de pedidos pela internet em pouco tempo. "Tivemos que suspender temporariamente os pedidos", declarou Atilla Ariman, o porta-voz da empresa.

Tradicionalmente, a colônia é usada na Turquia para dar as boas-vindas. Oferece-se, por exemplo, quando se recebem convidados em casa, mas, normalmente, o frasco é guardado em algum armário e é esquecido por ali. Agora, nos táxis, metrôs e ruas, os turcos levam consigo frascos de colônia nos bolsos e encharcam as mãos em generosas quantidades.

A Turquia já registrou 1.236 casos de coronavírus e tem 30 mortes confirmadas, segundo o último balanço publicado no domingo, 22. Neste cenário, a colônia está na linha de frente na luta contra a pandemia.

Distribuição de colônia

O ministro da Saúde turco, Fahrettin Koca, recomendou o uso das águas perfumadas como alternatica ao álcool em gel. A declaração do ministro foi um dos fatores que fez disparar a demanda pelo produto.

Segundo uma pesquisa do instituto turco Ipsos, 88% dos turcos estão usando desinfetantes ou colônias para se protegerem do vírus.

"Antes eu usava colônia em media duas vezes ao dia. Mas desde que começou a epidemia do coronavírus, uso três vezes ou mais", reconheceu Ilyas Göçdü, morador de Istambul. "Creio que seja eficaz, porque contém álcool. Mas agora está mais difícil de conseguir", completou.

Ao anunciar uma série de medidas para combater a epidemia na semana passada, o presidente do país, Recep Tayyip Erdogan, disse que se distribuiriam frascos de colônia e máscaras a pessoas com mais de 65 anos.

Segundo meios de comunicação turcos, em Izmit, no noroeste do país, uma associação decidiu distribuir pão e colônia a idosos até o final da pandemia.

Mas afinal, é eficaz?

A explosão da demanda provocou um aumento de preços e criou até um mercado negro de colônias na Turquia. Autoridades turcas afirmaram na semana passada que chegaram a um acordo com os principais produtores para estabilizar os preços.

Mas a colônia é realmente eficaz para prevenir o covid-19? O professor Bülent Ertugrul, membro da Sociedade Turca de Microbiologia Clínica e Doenças Infecciosas, afirma que o álcool da colônia pode destruir o coronavírus, atacando o pacote viral. "Como o álcool é um solvente potente, destrói a membrana lipídica do vírus", explicou.

"A colônia contém cerca de 70% de álcool, em média. Portanto, é eficaz para lavar as mãos contra o covid-19".

No entanto, o professor lembra que a forma mais eficaz de se proteger contra o vírus é lavar as mãos com água e sabão depois de qualquer contato com o mundo exterior."Se não há água ou sabão disponível, algo que contenha apenas 60% de álcool pode ajudar", disse./ AFP

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