Pastor americano promete nova queima de cópias do Alcorão

Terry Jones disse querepetirá destruição do livro sagrado muçulmano em memória aos mortos por radicais islâmicos

DENISE CHRISPIM MARIN, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2014 | 02h03

O pastor americano Terry Jones, autor do livro O Islã é do Demônio (The Islam is of the Devil), volta a inflamar os Estados Unidos com a promessa de queimar 2.998 exemplares do Alcorão - um para cada vítima do 11 de Setembro - na quinta-feira, na Flórida. A data remete aos 13 anos dos atentados terroristas da Al-Qaeda em Nova York e Washington.

Essa não será a primeira queima do livro sagrado muçulmano organizada por Jones. Em março de 2011, iniciativa semelhante provocou um ataque contra funcionários da ONU na localidade de Mazar-i-Sharif e protestos em Cabul, no Afeganistão, que resultaram na morte de pelo menos 12 pessoas e num imenso embaraço para o governo de Barack Obama.

Jones continua intocado pela Justiça americana. Foi investigado pela Polícia Federal em 2011. Foi preso por algumas horas, em 11 setembro de 2013, por ordem do xerife do Condado de Polk, Grady Judd, que o acusara de transportar material inflamável - as quase 3 mil cópias de Alcorão embebidas em querosene que pretendia queimar.

Depois de consumar a queima do Alcorão, ele promete comparecer ao tribunal do mesmo condado. Jones busca um acordo com a Justiça local: declarar-se culpado e, em troca, ter direito ao porte de arma.

Sua mais nova fogueira será levantada em memória "das pessoas assassinadas pelo Islã radical" e para "enviar uma mensagem clara de ameaça ao Islã de que não colocará sua base na Constituição americana, como fez na Europa". "O Islã radical não será barrado pela atitude apaziguadora do governo de Obama, mas apenas por uma demonstração de força e determinação", defendeu Jones, por meio de nota de sua organização, a Stand Up America Now.

Esse tipo de atitude, somada a discursos extremistas vindos do Tea Party e outras agremiações políticas americanas, tem provocado debate sobre o direito ilimitado de liberdade de expressão nos EUA. Pesquisa do Centro Primeira Emenda realizada em maio concluiu que a maioria dos americanos, 57%, não acredita que a garantia constitucional das liberdades individuais vá longe demais. No entanto, houve queda de 3 pontos porcentuais nessa avaliação desde 2013.

Depois de dez anos de queda, a percepção de que a Primeira Emenda estende em demasia os direitos individuais voltou a crescer. O atentado na Maratona de Boston, em 2013, teria contribuído para isso. Naquele ano, 34% concordaram com essa afirmação. Em 2014, o porcentual subiu para 38%.

Jones é tido como um tipo obscuro e provocador. Ao mesmo tempo que se vale da liberdade de expressão para emitir seu chamado contra o Islã e fazer sua campanha pelos EUA, é um catalisador e propagandista da intolerância religiosa. Em seu livro, o pastor defende que qualquer religião não cristã é obra do diabo.

Sua pregação concentra-se na igreja Dove World Outreach, fundada por ele em Gainesville, na Flórida, mas também é difundida pelas redes sociais, em entrevistas à imprensa e em seus protestos públicos, como o que fez no fim de 2011 na frente da Casa Branca.

Em 2012, ele foi pré-candidato republicano à presidência. Mas sua campanha nanica não foi para a frente nem mesmo entre as facções mais à direita do partido.

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