Pastor vê 'lado positivo' da escassez

'Há quem diga que se tirarmos o presidente vamos comer; isso é Satanás agindo', diz

FELIPE CORAZZA, ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2015 | 02h00

Em um banco de praça localizado entre a Assembleia Nacional da Venezuela e a Catedral de Caracas, seis pessoas sentam-se para ouvir as palavras de um pastor religioso. A profunda crise econômica e social do país, que gera escassez de alimentos e outros bens de primeira necessidade e uma inflação galopante que transforma salários em peças de ficção, no entanto, levam a pregação para outros rumos.

Diante de seus seis fiéis seguidores, Francisco Molina lista argumentos contra o desespero, começando por ex-presidentes da Venezuela. Cita Marcos Pérez Jiménez, temido ditador que presidiu o país entre 1952 e 1953, mas manteve-se como presidente de facto até 1958. Entra na lista, ainda, Carlos Andrés Pérez, presidente responsável pelo "paquetaço" econômico que culminou no Caracaço - convulsão social que cobrou quase 3 mil vidas, pelos cálculos extraoficiais, em fevereiro de 1989. Apesar do episódio, Pérez conseguiu concluir seu mandato até 1993.

Tudo é citado pelo pastor para mostrar, no sermão da Praça Bolívar, que não há nada de especial na atual crise. "Não tiramos Pérez Jiménez. Não tiramos Carlos Andrés Pérez. Por que vamos tirar esse aí (Nicolás Maduro), que não se sabe nem se roubou?"

Usando paletó, calça social e tênis, Molina tenta reverter possíveis ideias radicais nas cabeças de seu rebanho: "Há quem diga que se tirarmos o presidente, no dia seguinte todos teremos o que comer. Isso é Satanás na mente das pessoas".

No meio do discurso, um sétimo fiel chega. Chorando, senta-se no banco e pede, aos murmúrios: "Quero mudar de vida". Molina dá atenção especial ao homem, que frequenta sua igreja improvisada para tentar curar-se do alcoolismo.

Após a interrupção, o pastor volta a pregar sobre o lado positivo da escassez alimentar. "Estou comendo todos os dias aveia sem açúcar. Estou eliminando colesterol, perdendo gordura. Tenho 61 anos e não sofro de nada."

O pastor também menciona a possibilidade de substituir uma das refeições do dia por uma sessão de exercícios físicos e volta a pedir serenidade aos seguidores. "Ódio gera ódio. O que aconteceu no passado é o que acontece hoje. E o que precisou fazer Jesus Cristo? Entregar sua vida."

Terminado o pequeno culto, o pastor conta que não recebe nada dos fiéis, conta apenas com o apoio de grupos religiosos, alguns deles ligados à Igreja Católica. "Os milagres acontecem quando damos confiança, quando damos carinho às pessoas."

Durante a conversa, nova interrupção do fiel que tenta se livrar do vício em álcool. O Francisco de Caracas dá o dia por encerrado: "Vá para casa. Saiba que Cristo te ama."

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