Pastrana encerra mandato sem conseguir mudar a Colômbia

Com o cabelo grisalho e o rosto marcando em linhas firmes a passagem do tempo, Andrés Pastrana deixa a presidência da Colômbia sem ter podido mudar o país que recebeu em 1998, cumprindo o destino dos últimos mandatários cujos planos foram superados pelas circunstâncias. O julgamento sobre sua gestão ficou vinculado ao fracasso no processo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e ao auge do desemprego, que supera os 15%, enquanto sua popularidade se mantém há anos estancada em 20%. O saldo dos três anos de diálogo infrutífero entre o governo e as Farc parece ter sido favorável à organização rebelde, que hoje se converteu na principal ameaça ao Estado, ao passo que a administração Pastrana, além de ver a infra-estrutura do país semidestruída, não consegue fazer frente às intimidações proferidas contra prefeitos, juízes e promotores, que paralisam quase totalmente dezenas de municípios. Também permanecem em poder das Farc cerca de 20 dirigentes políticos e 47 militares. Tampouco houve nítidos progressos nos contatos governamentais com a segunda maior guerrilha do país, o Exército de Libertação Nacional (ELN). Diante dos rebeldes, dizem os analistas, faltou ao filho do ex-presidente Misael Pastrana (1970-1974), que era visto como uma esperança de "mudanças" na Colômbia, uma estratégia clara de negociação - lapso explorado pela pouca disposição da guerrilha para o diálogo. Acusado de frívolo e de abandonar o país para realizar viagens desnecessárias (estima-se que tenha ficado 224 dias no estrangeiro), Pastrana - que consolidou relações sólidas com os EUA - lega ao país forças armadas fortalecidas e modernizadas: um contingente de 140.000 homens frente os menos de 80.000 soldados em 1998, e helicópteros cujo número cresceu de 80 para 190. Grande parte deste processo de modernização é fruto da ajuda para a luta antidrogas fornecida pelos EUA. Washington, que se comprometeu a entregar US$ 1,7 bilhão para a guerra contra as drogas, já autorizou que esses recursos militares sejam usados para combater os grupos armados. E a União Européia (UE), que colaborou com as negociações de paz, hoje inclui as Farc e os paramilitares em sua lista de organizações terroristas. Pastrana - formado em Harvard e com inglês fluente - conseguiu colocar a Colômbia mais ao centro das preocupações internacionais, após as nefastas suspeitas de que o narcotráfico teria financiado a campanha de seu antecessor, Ernesto Samper - suspeitas levantadas pelo próprio Pastrana. A Chancelaria, no entanto, não pôde marcar grandes tentos com seus vizinhos. Com a Venezuela, a desconfiança se vê alimentada pela suposta ação transfronteiriça dos grupos armados colombianos, assim como por divergências econômicas. A economia interna é outro ponto contraditório. Embora a inflação tenha baixado um dígito e o déficit fiscal deva chegar a apenas 2,6% do PIB este ano, o desemprego cresceu e a pobreza afeta 27 dos 42 milhões de colombianos. Após sofrer a pior recessão em 70 anos, com a retração de 4,3% do PIB em 1999, o país voltou a crescer em ritmo lento - o que é quase um milagre em meio à guerra e às turbulências regionais. Hoje, o atual presidente, de 47 anos, não quis falar sobre o que fará a partir de 8 de agosto. Enquanto versões da imprensa asseguram que partirá para Madri com sua esposa e três filhos, o mandatário se limitou a dizer que continuará trabalhando pela paz.

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