Patriarcalismo está por trás da prática

A cultura patriarcal e a tradição dos casamentos forçados, de acordo com estudiosos, explicam por que o problema da excisão persiste na África e em parte do Oriente Médio e da Ásia. Por trás da ablação do clitóris, que busca impedir o orgasmo feminino, estão objetivos como a prevenção da infidelidade e da masturbação.

, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2010 | 00h00

Apesar do machismo que motiva a prática, é comum entre os homens africanos a alegação de que a excisão é uma decisão feminina. De fato, ela o é em parte, mas realizada sob intensa pressão social dos anciãos, que velam pela manutenção dos ritos tradicionais, excluindo ou marginalizando as mulheres que não cumprem a "obrigação".

Muitos homens rejeitam casar com mulheres que não tenham passado pela mutilação genital. "As mulheres que são sacrificadas, martirizadas, em geral são impedidas de sentir prazer com o sexo. É esse o objetivo", diz Gérard Zwang, cirurgião e sexólogo francês.

"Não há como mudar nada disso a não ser mostrando a essas sociedades que não será pela excisão que se obterá a castidade ou a fidelidade", disse ao Estado a escritora francesa Louisiane Doré-Miloche, autora de Le Drame de l"Excision (na tradução literal, "O Drama da Excisão"), publicado em 2009. "Falta informação. As pessoas que a praticam ou compactuam com a ablação feminina não sabem que ela é uma mutilação, uma violência contra a mulher."

A violência é praticada em todas as religiões e não apenas no islamismo, com o qual a mutilação é com frequência associada, explica Isabelle Gillette-Faye, socióloga e diretora da ONG Gams. "A excisão é praticada por católicos, judeus, muçulmanos, protestantes ou animistas. Não há diferença. E nem mesmo o Islã a impõe como lei." No entanto, para combater as ablações, adverte a socióloga, é preciso enfrentar também o tabu dos casamentos forçados.

Essa é a realidade de vítimas da excisão como a jovem Diaryatou Bah. Para a família dela, passar pela mutilação aos 8 anos era o primeiro passo para facilitar o casamento, forçado e realizado aos 13 anos e 6 meses com um homem de 45 anos, poligâmico, desconhecido e residente na Holanda, a 5 mil quilômetros da Guiné, onde ela nasceu.

O mesmo homem que a expulsaria de casa cinco anos depois, após três abortos espontâneos, relacionados à excisão. "Roubaram minha infância", resume Diaryatou, repetindo o título do livro que escreve sobre sua experiência. "É preciso acabar com isso."

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