Patrimônio histórico é mais uma vítima da guerra na Faixa de Gaza

Além das mortes de palestinos e israelenses, os mísseis reduziram a escombros construções com séculos de idade

O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2014 | 15h21

CIDADE DE GAZA - O conflito entre Israel e grupos radicais palestinos na Faixa de Gaza deixou até o momento um saldo trágico. Até as recentes tréguas foram mortos 1934 palestinos e 67 israelenses. Embora as vidas sejam o mais trágico saldo dos ataques entre as duas partes, há outros prejuízos graves a serem contabilizados, como por exemplo a mesquita de Al-Omari, em Jabaliya, que destruída por um míssil israelense.

Algumas partes do templo remontavam ao século XIV. Uma mesquita teria sido construída no lugar no século VII, pouco depois do surgimento do Islã. A mesquita de Omari era um dos prédios históricos que ainda se encontrava de pé em Gaza, uma cidade onde os blocos de moradias de concreto bruto se alinham ao longo de ruas poeirentas.

O templo está atualmente em ruínas. Só resta o minarete. O almuaden, como é chamado o responsável pelo chamado à oração, foi atingido pelo míssil enquanto cumpria com sua obrigação, segundo relatos dos vizinhos.

A Faixa de Gaza tem assentamentos humanos sedentários há 5.300 anos, mas os séculos de guerras e crescimento galopante da população desde a criação do Estado de Israel em 1948 apagaram qualquer traço de riqueza histórica e cultural deste território mediterrâneo encrustado entre o Egito e Israel.

A ministra palestina do Turismo e Antiguidades, Rula Maayah, pediu nesta quinta-feira, 14, à Unesco que denuncie a destruição intencional do patrimônio palestino pelo Exército israelense e equipare isso a um "crime de guerra".

Mas no próprio território a preservação "não é prioridade para ninguém", afirma Yasmine al-Judari, que ajuda seu pai a manter o pequeno museu que criou. "Quando se pensa em Gaza, não se pensa em sua história, na Gaza antiga ou na arqueologia, se pensa em emergência alimentar ou médica, em campos de refugiados", lamenta.

Para compensar a falta de um museu público, seu pai, Jawdat al-Judary, começou a colecionar objetos que ia descobrindo quando revolvia a terra para a construção. Esses objetos datam da época dos cananeus até a 1.ª Guerra.

Hamman. O museu privado, que abriu em 2008 frente ao mar em Gaza, expõe vestígios de cerâmica antiga, peças de moedas, objetos em bronze a armas. É associado ao museu um restaurante e um hotel que integraram algumas das descobertas: os pilares do balcão eram parte dos trilhos do trem que em outros tempos cruzavam o território.

Os Judary pensavam em aumentar sua coleção e renovar o museu e, em abril, receberam a visita de dois arqueólogos franceses, conta Yasmine. um dos arqueólogos voltou em julho, mas foi embora quando explodiu a guerra.

Os bombardeios causaram danos diretos e também indiretos ao patrimônio de Gaza, diz Ahmed al-Barsh, do ministério de Turismo. "Indiretos porque os visitantes não podem entrar, sejam estrangeiros, estudantes ou pesquisadores".

Antes mesmo da atual guerra, o bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza tornou o trabalho impossível, acrescentou. "Israel proibiu a importação de materiais de construção porque as organizações internacionais que trabalham neste setor deixaram de nos apoiar", afirma.

A mesquita Al-Mahkamah, que data do século XV, também foi destruída em Shajaya, um dos bairros de Gaza mais atingidos pelos bombardeios. Em um caos de escombros, cabos de eletricidade e metal se ergue apenas o minarete da era dos mamelucos.

O hamman al-Samara, último banho turco de Gaza, teve de fechar com a guerra. Os habitantes o frequentam há mais de mil anos. Era uma das últimas atrações ainda intactas para os poucos turistas.

Mohamed al-Uazir, cuja família dirige o hamman há quase um século, tenta pensar no futuro e fala de reabrir o estabelecimento. Pretende reduzir o preço da entrada pela metade (10 shekels, 2 euros) "em solidariedade às pessoas e em razão do que tiveram de passar".

 

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