Patriota é alvo de crítica em Davos por 'omissão' na Síria

Ministro rebate ataque de diretor da Human Rights Watch dizendo que 'impor democracia pela força' provou-se 'catastrófico'

FERNANDO DANTAS , ENVIADO ESPECIAL / DAVOS, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2012 | 03h07

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antônio Patriota, defendeu ontem a abstenção brasileira no voto no Conselho de Segurança da ONU sobre sanções à Líbia, diante de forte crítica de Kenneth Roth, diretor-executivo da Human Rights Watch, organização internacional de defesa de direitos humanos. O acirrado debate ocorreu durante um painel sobre democracia do Fórum Econômico de Davos.

Roth criticou governos, citando o do Brasil, que, na sua visão, têm sido omissos em relação a condenar a matança de civis pelo governo de Bashar Assad.

Patriota reagiu imediatamente, criticando, por sua vez, o que considera a posição de "estabelecer uma ligação quase automática entre intervenção militar e promoção da democracia". Para o chanceler, o intervencionismo cria problemas em países que estão em processo de incorporar grupos excluídos ao processo político. Patriota mencionou as "tentativas de se impor democracia de fora, com resultados muito negativos e catastróficos em lugares como o Iraque".

Ele acrescentou que a abstenção brasileira, no caso da Síria, não significava se abster de condenar a violência contra civis desarmados, mas sim se abster de se posicionar junto aos países inclinados a ações militares. "Abstenção aqui é assegurar o espaço para a diplomacia, para a negociação, para o diálogo e para o progresso, que não alimentam a violência."

Classificando de extremas tanto as posições das potências ocidentais que votaram pela resolução na ONU quanto as dos países que votaram contra, Patriota explicou que Índia, Brasil e África do Sul, "três democracias grandes, multiétnicas e emergentes, decidiram se abster conjuntamente". "De qualquer forma, esse voto teria sido inútil, porque a resolução não teria ido à frente", disse o ministro, aludindo ao anúncio da Rússia de que vetaria a proposta de resolução.

Roth não se deu por feliz. "Se um movimento está enfrentando uma repressão severa, enfrentando violência, o mundo deveria sentar-se e esperar uma revolução nacional ou deveria ajudar e tentar parar a matança?", questionou, lembrando que isso ocorreu no Egito.

Ele disse ainda que a visão de Patriota era a de esperar pela evolução natural dos eventos. "Acho que cruzar os braços é a coisa errada a fazer", criticou.

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