Patriota vê avanços em governo sírio

Violência é ''inaceitável'', diz chanceler brasileiro, mas Assad demonstra ''disposição para diálogo''

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / NOVA YORK

Apesar de ressaltar a gravidade da repressão do regime de Bashar Assad contra os opositores, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, disse ontem ver alguns avanços na crise política na Síria e a considera um cenário distinto do existente na Líbia.

A declaração do chanceler brasileiro foi dada um dia depois de os Estados Unidos afirmarem que Assad perdeu a legitimidade e de o Conselho de Segurança da ONU ter aprovado uma declaração na qual condena os ataques de partidários do regime às representações diplomáticas americana e francesa em Damasco.

"Apesar da violência de escala inaceitável, não condizente com um Estado moderno, democrático e pluralista, como o Brasil já deixou claro diversas vezes, o governo sírio tem demonstrado disposição em promover um diálogo nacional, rever leis eleitorais, soltar presos políticos e avançar em algumas reformas", disse o chanceler ontem em entrevista no Conselho de Segurança da ONU, em Nova York.

Segundo Patriota, o caso sírio se difere do líbio em dois pontos. Primeiro, porque, segundo ele, não há um consenso no mundo árabe, como ocorreu no caso da Líbia, quando a Liga Árabe apoiou a resolução contra Muamar Kadafi. Em segundo lugar, diz, há uma polarização entre os que defendem uma resolução e os que preferem trabalhar bilateralmente.

"O Brasil, a Índia e a África do Sul têm tentado aproximar essas posições", disse o ministro. O chanceler defende que o Conselho de Segurança se pronuncie de forma consensual por meio de uma resolução ou de uma declaração presidencial. "Mas a verdade é que a dificuldade está no seio dos próprios membros permanentes", acrescentou, em referência a EUA, Grã-Bretanha, Rússia, França e China.

No mês passado, Paris e Washington tentaram aprovar uma resolução contra a Síria. Apesar de o texto proposto não prever sanções, China, Rússia, Índia, Brasil e África do Sul não o apoiaram. A proposta foi retirada da pauta antes de ser votada.

A Rússia utiliza o porto de Latakia como entreposto comercial no Mediterrâneo e os chineses possuem importantes relações comerciais com a Síria. Alinhado aos outros países dos Brics, o Brasil defende uma saída negociada para a crise síria. Ao lado da Alemanha, esses países - exceto a África do Sul - se abstiveram da resolução que estabeleceu a zona de exclusão aérea na Líbia.

PARA ENTENDER

Regime já matou 1,3 mil

A menos 1,3 mil pessoas morreram na repressão do regime sírio a opositores nos últimos quatro meses. Outras 12 mil foram presas. Há dezenas de relatos de tortura. Ontem, houve mais quatro mortos por forças de segurança em uma vila perto da Turquia e duas explosões atingiram gasodutos.

Os protestos estão concentrados em Hama, quarta maior cidade do país. Dezenas de cidades menores e vilas também registraram intensos protestos. Damasco, que é a capital, e Alepo, principal centro econômico, ainda não enfrentam grandes manifestações contra o regime de Bashar Assad. Na periferia de Damasco, alguns manifestantes tiveram coragem de sair às ruas, mas foram logo reprimidos. Os protestos contra o regime inicialmente não pediam a queda de Assad, mas a dura resposta endureceu a posição dos opositores.

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