Patrões argentinos ''''votam'''' por camponeses

?Currais eleitorais? são comuns em bolsões de miséria no interior do país

Roberto Lameirinhas, O Estadao de S.Paulo

23 de outubro de 2007 | 00h00

Carmen, Argentina - A área rural da cidadezinha de Carmen, de 3 mil habitantes e a 1.700 quilômetros a noroeste de Buenos Aires, é um símbolo do empobrecimento dos argentinos nas últimas décadas. Lavradores das grandes plantações de tabaco - principal atividade econômica do lugar - ganham, no máximo, 30 pesos (US$ 10) por dia de trabalho, sem vínculo empregatício.Muitos agricultores que não conseguem vaga nos precários alojamentos das fazendas vivem com a família, quase sempre numerosa, em condições quase subumanas. Alguns se queixam da falta de assistência por parte do Estado, embora poucos se disponham a falar em política ou em eleição. Mas são donos de votos que decidem a disputa eleitoral - principalmente a municipal - e se convertem no alvo preferencial dos candidatos em campanha.Em geral, explica ao Estado um cabo eleitoral local, integram "currais eleitorais" do patrão de turno - papel hoje exercido pelos donos das fazendas de tabaco. Votam, na maior parte dos casos, em favor dos candidatos de quem lhes dá trabalho. No dia da eleição, ônibus alugados pelos partidos vão aos campos para buscar os eleitores e levá-los até as urnas.O "caciquismo" e o "voto de cabresto" nas áreas rurais são comuns na história política argentina, segundo o professor de sociologia da Universidade de Buenos Aires Lucas Rubinich. "Essa prática - que, é bom que se diga, não é exclusiva daqui - tem assegurado o poder político de muitos líderes locais", diz Rubinich. "E esse poder quase sempre é utilizado como moeda de troca na relação com as autoridades federais."Sebastián, um lavrador de 34 anos que vive em um alojamento de casas de pau-a-pique de uma fazenda de tabaco, considera que o melhor negócio é mesmo seguir o voto do patrão. Ele sustenta a família de cinco pessoas com os 30 pesos que ganha por dia. "O que eu ganho mal dá para comprar comida para todos. Só temos energia elétrica porque o patrão paga a conta", afirma Sebastián. "Tenho a sorte de ter um bom patrão. Se tivermos algum problema de saúde ou precisarmos de alguma coisa a mais, só teremos a ele a quem recorrer."Enquanto lava a roupa num balde à beira de um esgoto a céu aberto, Norma, de 37 anos, diz não esperar nada dos políticos: "Eles aparecem aqui no dia da eleição para levar os homens para votar e depois somem."Na porta de sua casa de adobe e teto de zinco - numa região onde a temperatura ultrapassa os 30 graus no verão -, ela relata que só trabalha durante o período da colheita de cana-de-açúcar em municípios vizinhos, como Perico ou Palpalá. Na maior parte do ano, só o marido e o filho mais velho, de 18 anos, têm trabalho garantido nos campos de tabaco. Norma e o marido têm outros dois filhos - um garoto de 12 e uma menina de 5 anos. O de 12 já deixou a escola, depois de aprender a ler e escrever. Perto dali, Lucrécia, uma mulher tímida e desconfiada ante a aproximação de estranhos, vive em condições ainda piores. A casa onde mora com o marido e cinco filhos pequenos é feita de barro e restos de papelão. Só o marido trabalha. "Nunca recebemos nada dos políticos e essas coisas não interessam para nós", afirma, ao ser indagada sobre a eleição.

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