Youssef Badawi/Efe
Youssef Badawi/Efe

Paulo Sérgio Pinheiro: 3 milhões de sírios já foram afetados pela violência

Diplomata afirma que até crianças estão entre as vítimas das torturas e de assassinatos

Jamil Chade, correspondente em Genebra,

28 de novembro de 2011 | 12h39

GENEBRA - No olho do fucarão, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro garante que foi "totalmente imparcial" ao conduzir a investigação sobre a repressão na Síria. Em entrevista ao Estado, Pinheiro aponta que suas estimativas são de que 3 milhões de sírios já tenham sido afetados de uma forma ou de outra pela crise que afeta o país e alerta que o que mais lhe impressionou foi a total impunidade em relação aos crimes e ao fato de crianças estarem entre as vítimas das torturas e de assassinatos. Eis os principais trechos da entrevista:

 

ESTADO: Uma das principais conclusões que o senhor faz na investigação é que há provas de crimes contra a humanidade cometidos na Síria. O que o senhor espera que ocorra agora?

 

Paulo Sérgio Pinheiro: Não nos cabe dizer o que fazer a partir de agora. Isso quem decidirá será o Conselho de Direitos Humanos que irá referir o documento à Assembleia Geral da ONU. Isso é uma questão para os estados decidirem.

 

ESTADO: Mas há sinais claros de que a responsabilidade por esses crimes seja do estado?

 

Paulo Sérgio Pinheiro: Pelo que pudemos apurar, ficou claro que há a responsabilidade patente das forças armadas e o estado é quem responde por elas sim. Ao fazer essa enquete, não entrevistamos apenas militantes da oposição de carteirinha. Foi uma investigação mais ampla e abrangente.

 

ESTADO: O governo da Síria fez alguma objeção durante a investigação?

 

Paulo Sérgio Pinheiro: O que ocorreu é que desde o primeiro minute tentamos ter acesso ao país e isso não nos foi concedido. O que nos foi dito era de que, uma vez terminado o trabalho de uma comissão interna de investigação que os sírios montaram, então nós seríamos autorizados a entrar. Mas nunca recebemos nenhuma informação sobre o trabalho dessa comissão interna e nem os resultados de seu trabalho.

 

ESTADO: O sr. já foi relator especial da ONU para países com ditaduras sangrentas, como Mianmar. O que o surpreendeu desta vez na Síria ?

 

Paulo Sérgio Pinheiro: Um dos aspectos foi a total falta de impunidade. Nada foi feito para remediar ou investigar nada no país. Outro fato que chama muito a atenção é o pouco caso que militares tiveram com crianças, com informações sobre torturas e assassinatos.

 

ESTADO: O governo insiste que está sendo alvo de uma campanha terrorista. O sr. viu algo nesse sentido?

 

Paulo Sérgio Pinheiro: Gostaríamos muito de saber mais sobre isso. Mas o governo não compartilhou conosco nenhuma informação. Apenas insiste que 1,1 mil soldados já foram mortos. Mas não dizem onde, quem são.

 

ESTADO: Ao realizar a investigação, qual foi sua principal preocupação?

 

Paulo Sérgio Pinheiro: Não tivemos acesso á Síria. Mas isso não quer dizer que não tivemos a informações de dentro da Síria. Conseguimos detalhes importantes que nos mostraram a realidade mais abrangente possível. Não entrevistamos apenas soldados ou opositores. Mas também mulheres, crianças. Se tivéssmos tido acesso á Síria, teríamos pedido para falar com ministros, soldados feridos, familiares desses militares que dizem ter sido mortos. Por isso não aceito a acusação de que fomos parciais. Não fizemos distinção entre a oposição e o governo. O que interessa é a população e a sociedade síria. A constatação a qual chegamos é de que 3 milhões de pessoas foram de uma forma ou de outra afetada pela violência. Milhares de pessoas ainda tiveram de fugir do país, gente comum como eu e você.

 

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