OLI SCARFF/AFP
OLI SCARFF/AFP

Pausa em campanha após assassinato amplia incerteza no referendo britânico

A pausa prolongada ampliou a incerteza em torno do resultado do referendo que decidirá o futuro britânico no bloco europeu

Andrei Netto, Correspondente / PARIS, O Estado de S. Paulo

17 Junho 2016 | 20h01

A campanha em torno da permanência ou não do Reino Unido na União Europeia (UE) foi suspensa pelo menos até este sábado, após o assassinato da deputada Jo Cox, do Partido Trabalhista, morta na quinta-feira. A pausa prolongada a cinco dias da votação ampliou a incerteza em torno do resultado do referendo que decidirá o futuro britânico no bloco europeu. 

Nesta sexta-feira, pela primeira vez, os líderes dos dois maiores partidos do país, o primeiro-ministro conservador David Cameron e o líder trabalhista Jeremy Corbyn, reuniram-se em um ato de desagravo à família da deputada. Menos de 24 horas após a confirmação da morte de Jo Cox, o dia foi de recesso no Parlamento e de homenagens à parlamentar, considerada uma das estrelas em ascensão. 

Em todo o país, instituições como Westminster, sede do Legislativo, Downing Street, sede do Executivo, e no Palácio de Buckingham, sede da monarquia, bandeiras britânicas foram hasteadas a meio mastro em sinal de luto. 

Em paralelo, líderes políticos se reuniram na cidade de Birstall, no norte da Inglaterra, onde a deputada foi assassinada. Em seu pronunciamento, Cameron exortou os britânicos à tolerância e à união, em uma crítica indireta ao tom da campanha do referendo, que dividiu o país. “Nossa nação está chocada, e com razão”, disse o premiê conservador, que pediu a pacificação dos discursos políticos no país. 

“Onde vemos o ódio, onde encontramos divisão, onde vemos intolerância, devemos afastá-la da política, da vida pública e de nossas comunidades”, apelou. “Se realmente queremos honrar Jo, então deveríamos reconhecer seus valores – a comunidade o serviço, a tolerância – pelos quais ela viveu e trabalhou e os quais temos de redobrar na vida nacional.”

Ao seu lado, Corbyn adotou o mesmo tom, em outra crítica indireta ao líder de extrema direita Nigel Farage, do Partido pela Independência do Reino Unido (UKIP), que faz campanha em favor do “Leave” com ênfase na rejeição aos imigrantes. “O que ocorreu foi um ataque à democracia. Foi o ódio que a matou”, advertiu o líder do Partido Trabalhista. “Não vamos permitir que pessoas que desejam espalhar ódio e veneno nos dividam.”

Futuro. O assassinato da deputada, uma militantes da campanha pelo “Remain” (a permanência na UE) e o congelamento da campanha ampliaram a incerteza sobre o resultado do referendo marcado para o dia 23. A última média das pesquisas indicava uma leve tendência em favor do Brexit, por 52% a 48%, mas as sondagens haviam sido realizadas antes do crime.

Desde o assassinato, as críticas aos movimentos de extrema direita, maiores defensores do Brexit, se intensificaram. Um cartaz espalhado pelo UKIP no qual imigrantes aparecem cruzando a Eslovênia em direção à Europa, com o slogan “Nós devemos nos liberar e recuperar o controle”, ampliou o tom agressivo da campanha e Farage foi acusado de empregar métodos nazistas de propaganda política.

Segundo o cientista político Peter Catterall, professor da Universidade de Westminster, o assassinato de Jo Cox, mesmo sendo obra de um homicida com aparentes problemas mentais, é fruto de uma clima político de beligerância e de crescimento da extrema direita que tem como pano de fundo a desconfiança em relação à elite política representada por Londres. “Não podemos dissociar o assassinato de Jo Cox do ambiente histérico no país”, afirmou. 


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