Pax colombiana

Se a tentativa de negociar a paz entre o governo da Colômbia e a guerrilha finalmente parecia prestes a deslanchar, os primeiros comentários do lado de lá das barricadas foram pouco auspiciosos. "A paz não significa o silêncio dos fuzis", disse Luciano Marín, conhecido como Iván Márquez, o porta-voz das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), na abertura da reunião em Noruega.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2012 | 07h03

E não foi só isso. Em sua primeira fala na mesa de negociações, que durou 33 minutos, Ivan Márquez investiu contra as empresas multinacionais, contra os tratados de livre comércio, contra os Estados Unidos (claro) e contra a política de partilha de terras do governo colombiano. Depois, seguiu denunciando, nome por nome, os invasores do cerrado, no leste da Colômbia, entre eles os filhos do ex-presidente Alvaro Uribe.

Uribe não deixou por menos, soltando o verbo em sua conta no Twitter, que usa como casamata da contrainsurgência política. "Mentiroso", sentenciou o ex-presidente contra Márquez. Ele ainda desqualificou as Farc, classificando os guerrilheiros de "sequestradores" que "fazem apologia ao crime".

Tentativas de paz. Ossos do ofício? Houve quem contemporizasse. Afinal, o guerrilheiro falava não apenas para a mesa de negociadores, mas para a galera camuflada entocada nas matas do país.

No entanto, suas declarações lançaram sombras sobre o encontro de paz na Noruega. Essa é a quarta vez que um governo colombiano acena com um ramo de oliva no esforço para terminar o conflito sangrento que já dura meio século. As outras três terminaram mal, ora por desconfiança mútua, ora por traições diversas.

Só que, desta vez, as expectativas começaram altas e quem tem mais a perder no tabuleiro é Juan Manuel Santos. O presidente colombiano guardou como segredo de Estado os preparativos para essa nova rodada de diálogo e, agora, arrisca boa parte do seu considerável capital político na empreitada.

Afinal, Santos conquistou a presidência como sucessor e emissário de Uribe. Como ministro da Defesa, ele comandou a bem sucedida ofensiva do governo Uribe contra os insurgentes, dizimando sua tropa (que caiu de 14 mil homens de efetivo para menos de 9 mil ) e matando três integrantes do seu alto comando.

Entretanto, a cria voltou-se contra o criador e, uma vez no governo, Santos tratou de afastar-se da posição mais beligerante de seu antecessor. Fez as pazes com o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e com seu sócio bolivariano, o equatoriano Rafael Correa, arqui-inimigos da Bogotá uribista. Pior, o governo Santos, hoje, está processando políticos ligados ao ex-governante por suspeita de crimes e de abuso de direitos humanos.

A heresia maior veio agora com o novo esforço de paz com a guerrilha. É mais uma das razões pela qual Uribe não cessa de criticar Santos, bombardeando seu sucessor via Twitter com umas 40 mensagens diárias, que chegam a 1 milhão de seguidores.

Se o novo diálogo com a guerrilha também fracassar, seria uma pena. Raramente se reuniram tantas condições para que prosperasse a paz na Colômbia. As Farc estão enfraquecidas e desmoralizadas, com o apoio explícito de pífios 5% dos colombianos, segundo as pesquisas de opinião mais recentes.

Falta de apoio. A Colômbia, pela primeira vez, tem um programa sério de desmobilização, oferecendo aos combatentes uma porta de saída da bandidagem, sem esquecer dos seus delitos. O governo Santos também está investindo contra os paramilitares da extrema direita, reduzindo assim o risco de campanhas de vingança contra guerrilheiros que abandonam suas armas.

Falta apenas combinar com os dois extremos da querela, a ala que ainda anda com os fuzis AK-47 e a outra, que metralha pela internet.

* É COLUNISTA DO 'ESTADO'

CORRESPONDENTE DA 'NEWSWEEK' E EDITA O SITE BRAZILINFOCUS.COM

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