Paz abalada em Parliament Hill

Clima de tranquilidade no centro de poder do Canadá pode mudar, mas não deveria

MICHAEL , PETROU , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2014 | 02h02

Aqui na capital do Canadá, o Parliament Hill é tão majestoso quanto um espaço público pode ser. Não há seguranças impedindo pedestres de subirem a colina. Num dia comum, é possível encontrar pessoas jogando bola ou praticando ioga no gramado. Quase sempre há manifestantes de algum tipo - geralmente polidos e pouco obstrutivos.

Sempre me orgulhei da atmosfera relaxada do lugar, sua acessibilidade e, francamente, a ausência de segurança visível. Isso bate com meu ideal de um governo que não fica isolado ou acima das pessoas a quem serve.

Na quarta-feira, um atirador aproveitou-se dessa abertura no coração da democracia canadense. Após assassinar o cabo do Exército canadense Nathan Cirillo no Memorial Nacional da Guerra, ele correu para o prédio principal do Parlamento e estava do lado de fora das salas de reuniões quando foi morto a tiros. O ataque ocorreu apenas dois dias depois de um homem considerado um islamista radical ter avançado com um carro sobre soldados canadenses em Quebec, matando o suboficial Patrice Vincent.

O atirador foi identificado como Michael Zehaf-Bibeau, de 32 anos, de Quebec, cujo prontuário policial incluía passagens envolvendo drogas e intimidações. Uma conta do Twitter que apoia o Estado Islâmico (EI), grupo jihadista que devasta a Síria e o Iraque, publicou uma foto dele na quarta-feira. Segundo o jornal The Globe and Mail, Zehaf-Bibeau fora qualificado como um "viajante de alto risco" por autoridades canadenses.

A questão é se esse ataque está relacionado à recente decisão do Canadá de integrar a coalizão internacional contra o EI. Em agosto, o Canadá prometeu fornecer consultores de forças especiais e transportou armas para os curdos no norte do Iraque. Em setembro, um porta-voz do EI conclamou seguidores do grupo a atacar os canadenses. Um porta-voz do premiê canadense, Stephen Harper, respondeu: "Não seremos intimidados por ameaças".

Mas, se Zehaf-Bibeau seguiu uma interpretação extremada e distorcida do Islã, é razoável imaginar que a participação do Canadá na missão de combate no Iraque o influenciou, que ele pretendia punir o Canadá, pressionar o país para que se retire da coalizão, mudar a nação que estava atacando.

Nesse caso, ele errou no cálculo. A missão de combate do Canadá é certamente um foco de dissensões políticas por aqui. Uma votação no dia 7 sobre a questão na Câmara dos Comuns opôs o Partido Conservador (do governo) aos Liberais e ao Novo Partido Democrático, da oposição. Mas dizer que os canadenses estão divididos sobre ir à guerra no Iraque é diferente de afirmar que nos assustamos facilmente.

Na quarta-feira, o senador canadense Jim Munson declarou: "Nossos dias de inocência terminaram hoje". Não estou certo sobre a inocência do Canadá antes do ataque. É verdade que evitamos boa parte das lutas e do terror que afligiram tantos outros países, incluindo nossos amigos mais próximos e vizinhos, os EUA, e o fizemos sem medidas draconianas de segurança.

Nossos serviços de segurança frustraram ataques e talvez, até agora, nós tivemos sorte. Nossa sociedade, bilíngue e multiétnica, está em boa medida de bem consigo mesma. Também combatemos duas guerras mundiais devastadoras e recentemente encerramos uma missão de 12 anos no Afeganistão que tirou as vidas de 158 soldados canadenses. Tivemos uma democracia pacífica e funcional por 147 anos. Há sorte envolvida nisso, Mas há também capacidade de regeneração.

O ataque de quarta-feira foi trágico e obsceno e, no entanto, insignificante demais para abalar o país. Harper deixou claro que o ataque não abrandaria os esforços antiterroristas no exterior. "Ele nos levará a fortalecer nossa determinação e redobrar nossos esforços para trabalhar com nossos aliados em todo o mundo e lutar contra as organizações terroristas que brutalizam nos outros países na esperança de trazer sua selvageria para nossas praias", disse.

Os membros do Parlamento canadense continuarão a debater os méritos da intervenção militar no Iraque e outras políticas externas com base em suas percepções do que é o melhor para o Canadá e o que nós podemos e devemos fazer no exterior. O ataque de quarta-feira não mudará isso. Quanto ao Parliament Hill, ele e o centro de Ottawa tinham uma atmosfera bem menos plácida na quarta-feira. A colina talvez nunca volte a ser o que era, mas espero que chegue perto disso. Portões trancados não teriam lugar ali. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É ESCRITOR E CORRESPONDENTE DA

REVISTA 'MACLEAN'S'

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