Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Paz frágil põe veteranos em alerta

Regime justifica gastos militares com o argumento de uma 'guerra iminente'

Felipe Corazza, enviado especial / Pyongyang, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2013 | 02h01

Embora celebrem o "Dia da Vitória", os norte-coreanos sabem que formalmente o conflito na península nunca acabou. E usam isso para mobilizar não só os militares na ativa, como os veteranos. A "guerra iminente" é o principal argumento do regime da dinastia Kim para justificar os grandes investimentos em Defesa (mais informações nesta página) e serviço militar obrigatório que varia de 3 a 10 anos, para homens e mulheres.

Boa parte do desfile militar é justamente de louvação aos líderes. Milhares de civis, todos integrantes do partido, cercam carros alegóricos com as figuras de Kim Il-sung e Kim Jong-il, os primeiros ditadores do país. As alegorias se intercalam com outras que trazem esculturas de soldados e mensagens de celebração do fim da guerra.

Os armamentos mais novos são conjuntos de tanques comprados da China e alguns veículos blindados. Aviões e helicópteros sobrevoam o desfile enquanto um grupo passa segurando escudos com o símbolo da radioatividade, simbolizando o poderio nuclear do país. Por fim, encerra-se a parte militar da marcha com a exibição dos mísseis que, segundo os norte-coreanos, ainda têm capacidade para atingir até a Costa Oeste dos Estados Unidos.

Na arquibancada que fica pouco abaixo da tribuna de honra, sentados sob o sol desde cedo, os veteranos agora descansam um pouco. O piloto da divisão de tanques número 105 do Exército Popular Coreano Son Song-ki, de 82 anos, conta ao Estado que participou da captura ou da morte de 72 soldados inimigos - muitos deles, americanos. "Matei quatro deles com minha baioneta", relata orgulhoso.

Os tanques da divisão de Son chegaram até a capital dos inimigos, Seul, segundo o próprio ex-combatente, cujo rosto perde o sorriso quando fala dos tempos difíceis pós-conflito. "O povo se engajou politicamente na guerra. Com o espírito politizado, depois do fim do combate, foi outra luta para construir o país. Só havia cinzas."

O desfile para celebrar os 60 anos da "vitória" foi realizado na Praça Kim Il-sung, que leva o nome do fundador do regime e primeiro líder do país sob a égide comunista. Em tamanho menor, a praça guarda semelhanças com a da Paz Celestial, em Pequim. Enquanto esta tem o retrato de Mao Tsé-Tung como principal marca, a da capital norte-coreana exibe dois: o do próprio fundador e, agora, o de Kim Jong-il, morto em dezembro de 2011, segundo líder do país e filho do "libertador".

Acima dos dois retratos está a tribuna de honra. Nela, pontualmente às 10h, entrou Kim Jong-un, o terceiro líder na dinastia local, no poder desde dezembro de 2011. Aplaudido de pé pela multidão, Kim foi recebido com gritos organizados e uma salva de tiros de artilharia ao longe. A seu lado, estava Li Yuanchao, integrante do Politburo do Partido Comunista da China. Na sexta-feira, durante uma reunião com Kim na capital norte-coreana, Li pediu ao líder que aceite voltar à mesa de negociações sobre a questão nuclear na península. Mais um sinal de que a China já não dá apoio incondicional às atitudes do regime de Pyongyang.

Blocos de 400 homens e mulheres cada um passam diante da tribuna exibindo armamentos, quase todos antigos. As primeiras fileiras mecanizadas são baterias de foguetes de fabricação soviética utilizados desde a 2.ª Guerra.

Enquanto passam ao lado dos carros, os cidadãos agitam flores e gritam na direção da tribuna de Kim Jong-un: "Manse!". Significa "Viva!". Depois disso, a marcha é encerrada e o líder deixa o local, acenando para seus comandados e ouvindo um novo grito, o de "Defenderemos Kim Jong-un com nossas vidas". Pontualmente ao meio-dia, Kim Jong-un deixa a praça. Sentado a poucos metros de onde estava o líder máximo, o veterano Son também discursa a seu favor. "Fizemos uma mudança radical, mas ainda avançaremos mais."

Terminadas todas as etapas das solenidades, veteranos, soldados e civis que participaram do desfile se acotovelam em pequenas tendas nas proximidades da praça pra comprar água, cerveja, suco e sorvetes. À sombra de árvores, veem passar os últimos grupos mecanizados que completaram o trajeto e se dirigem novamente aos quartéis, enquanto crianças em uniformes acenam com ramos de flores artificiais e repetem os gritos dos adultos: "Manse!"

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