PC cubano traça metas para atrair jovens

Limitar os mandatos no governo e fazer reuniões 'mais objetivas' estão entre as diretrizes para renovar o partido discutidas em congresso

LISANDRA PARAGUASSU, ENVIADA ESPECIAL / HAVANA, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2012 | 03h03

Há 53 anos no poder, o Partido Comunista Cubano busca modos de atrair jovens para diminuir a burocracia e se modernizar. Essa é uma das principais metas da Primeira Conferência Nacional, que começou ontem, iniciativa do presidente Raúl Castro, de 80 anos. O que os 811 delegados discutem nos salões do Palácio de Convenções de Havana, entretanto, está longe do que parece preocupar a maioria dos 11 milhões governados pelo partido.

Desde que assumiu definitivamente o poder em 2008, o presidente vem incentivando mudanças econômicas que, na sua visão, não tem andado como deveriam em parte por causa da estrutura arcaica do partido. O documento posto em discussão reconhece que é preciso "mudar a mentalidade", sendo essa a parte mais difícil.

Para acelerar a renovação dos quadros, um plano que Raúl promete colocar em prática é o limite dos mandatos nos cargos principais, incluindo o seu, de secretário-geral - o máximo seriam dois mandatos de cinco anos. Hoje, a cúpula do partido é comandada por octogenários há décadas no topo da hierarquia.

Um exemplo das mudanças sugeridas chega a ser prosaico: "É preciso por fim a velhos hábitos como reuniões excessivamente longas e com frequência no horário de trabalho; com agendas inflexíveis que não levam em conta a realidade dos militantes; frequentes convocações para atividades comemorativas formais; trabalhos voluntários exigidos nos dias de descanso sem conteúdo real, provocando gastos e apatia".

Enquanto os delegados discursavam sobre a necessidade de "trabalhar mais do que todos" e "servir de exemplo", ou "avaliar a efetividade do trabalho político-ideológico", Claudia Herrera, de 32 anos, estava mais preocupada em encontrar um lugar para comprar leite para sua filha de 10 anos. Nem mesmo sua convivência com a juventude comunista na Universidade de Havana, onde estuda hotelaria, faz com que se anime em relação aos debates. "Não me importa o que eles decidem. No nosso dia a dia, isso nada muda. O que me importa é que encontrar trabalho, colocar comida na mesa", disse ao Estado, depois de rodar por quatro diferentes lugares até encontrar o leite.

Entre as avaliações feitas pelos delegados está a de que o partido se mete em temas dos quais não precisaria participar e que suas reuniões devem se concentrar, a partir de agora, na aplicação dos planos econômicos propostos pelo congresso do partido. Mudanças que tiveram pouca repercussão até agora na vida do taxista Lázaro Martins, 40 anos.

"São um grupo, todos com mais de 50 anos, que vivem bem, comem bem e não sabem nada. Fazem lá seus discursos, depois vão para o hotel, tomam um banho de piscina e aqui nada muda", opina. Sobre as reformas econômicas, conta o que para ele mudou: "Antes quando a pessoa precisava comprar uma fruta, uma verdura, tinha que andar três ou quatro quadras até o mercado. Agora tem os "carretilleros" que passam na frente da sua casa vendendo. Mas o produto é o mesmo, o preço é o mesmo. Só não tenho que caminhar". Os carretilleros são produtores rurais autorizados pelo governo a vender seus produtos diretamente à população, sem ter que entregá-los ao Estado.

"Eles estão presos no passado, por isso essa conferência não atrai a menor atenção. É apenas uma coreografia. Enquanto eles tiverem a pretensão de ser uma voz única as pessoas não vão querer participar. É uma pena, porque os cubanos têm um espírito revolucionário, tem o desejo, tem o interesse pela política", analisa o economista dissidente Oscar Espinosa Chepe.

Para o assistente de hotelaria Raúl Orñoz, participar algo reservado a alguns. "Nós, que não temos poder, não podemos dizer nada, para que vamos prestar atenção? O que nos vai ajudar?". Apesar de os delegados terem sido eleitos nas diferentes regiões cubanas - e, de acordo com as informações oficiais as propostas terem passado por 65 mil reuniões - a conferência é fechada, sem acesso para a população em geral e com imagens garantidas apenas à imprensa oficial.

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