Lee Jin-man/AP
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PC tem de se 'purificar', adverte líder chinês

Segundo Jiacheng, a própria cúpula é a maior ameaça à sobrevivência do partido

FELIPE CORAZZA, ENVIADO ESPECIAL / PEQUIM, CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2012 | 02h06

PEQUIM - A maior ameaça à sobrevivência do Partido Comunista da China vem da cúpula da organização, disse um dos principais dirigentes que participam do congresso que definirá a mais ampla troca de comando no país em dez anos. "O sistema tem de restringir e regular nossas atividades e fortalecer a fiscalização", declarou Sun Jiacheng, vice-presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, entidade de aconselhamento do governo e do parlamento.

"O caso de Bo Xilai disparou o alarme para que nós retenhamos nossa pureza, determinação e unidade nos altos escalões do partido", afirmou Sun durante discussão aberta à imprensa, segundo relato da agência de notícias Reuters.

Prefeito da megacidade de Chongqing até setembro, quando foi afastado, Bo Xilai foi o centro do maior escândalo da história recente do Partido Comunista chinês. O ex-chefe de polícia da cidade e braço direito de Bo, Wang Lijun, refugiou-se no consulado dos Estados Unidos na cidade de Chengdu e acusou seu aliado de corrupção.

Wang também acusou a mulher do líder, Gu Kailai, de ter assassinado o empresário britânico Neil Heywood em 2011. Bo, que sabia do crime e o acobertou, foi então retirado do poder. Posteriormente, foi deposto, expulso do partido e, agora, está detido aguardando julgamento por corrupção e abuso de poder. Gu foi sentenciada à pena de morte, convertida em prisão perpétua. Bo Xilai era um nome em ascensão dentro do partido e tinha grandes chances de ser escolhido para compor o Politburo que será escolhido durante o atual congresso.

Sem menção específica, o escândalo foi um dos pontos de destaque do discurso do presidente chinês, Hu Jintao, na abertura do 18.º Congresso do Partido Comunista, na quinta-feira. Hu, que deixará o poder ao final do encontro e passará o cargo de secretário-geral do partido ao atual vice-presidente Xi Jinping, disse que o novo governo deve lutar para que o poder seja exercido "de uma maneira transparente".

Projetando os próximos cinco anos sob o comando de Xi, o atual presidente afirmou que o partido deve criar novos mecanismos para endurecer o controle disciplinar de seus integrantes. "Determinados setores são mais propensos à corrupção e outras ilegalidades, e a luta contra a corrupção continua a ser um sério desafio para nós", ponderou.

Condutas como a de Bo Xilai ou a do ex-ministro das Ferrovias, Liu Zhijun, afastado sob a suspeita de ter recebido propinas de 800 milhões de yuans (R$ 260 milhões), podem levar a um "colapso do partido e a queda do Estado", nas palavras do próprio Hu. Informações sobre enriquecimento ilícito contra o atual primeiro-ministro, Wen Jiabao, no entanto, foram publicadas pelo jornal New York Times e tratadas apenas como "mentiras" pelo governo chinês. A família de Wen teria acumulado uma fortuna de US$ 2,7 bilhões, segundo o jornal.

Hu Jintao também fez um apelo à unidade interna do partido. O Politburo liderado por Xi Jinping marcará a ascensão de uma nova geração de comando na China e o atual presidente pediu aos novos líderes que reforcem a "criatividade, a coesão e a habilidade de melhorar sua capacidade de governar". A mensagem é emblemática em um momento de transição de gerações de um partido que já passou por divisões tão traumáticas.

Sun Jiacheng ressaltou que a "tempestade política" de 1989 foi um problema originado na cúpula da organização. Naquele ano, centenas de milhares de estudantes ocuparam a Praça Tiananmen durante semanas para demandar reformas democráticas. O movimento provocou uma cisão na liderança do país e terminou com a entrada de tanques em Pequim na noite do dia 3 para 4 de junho. O número de mortos nunca foi revelado, mas entidades de direitos humanos estimam que houve cerca de mil vítimas.

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