Pechincha no supermercado: pão a 7 milhões de zimdólares

Hiperinflação de 100.580% provoca caos econômico e leva população a perder noção do valor do dinheiro

Mariana Della Barba, O Estadao de S.Paulo

29 de março de 2008 | 00h00

Na quinta-feira, uma notícia se espalhou rapidamente entre a população de Harare: o supermercado Spar estava vendendo pão a somente 7 milhões de dólares zimbabuanos, ou zimdólares, como eles dizem por lá. Mas, segunda a agência de notícias Associated Press, na hora em que os clientes chegaram ao caixa, o preço já havia subido para 25 milhões de zimdólares - ou US$ 0,60, valor mais alto que o salário semanal de um professor no país. Mesmo para os brasileiros mais velhos que sofreram sob uma inflação de três dígitos, é difícil imaginar como os zimbabuanos convivem com sua hiperinflação de 100.580% ao ano - a mais alta do mundo e uma das mais altas da História. Raul de Taunay, embaixador do Brasil no Zimbábue, conta como é o cotidiano no país: "Quando sai para fazer compras, minha mulher leva uma mochila de dinheiro. Em casa, passamos de 10 a 15 minutos contando as notas. Na maioria dos supermercados, há máquinas de contar dinheiro." Analistas afirmam, porém, que a inflação real pode ser muito mais alta, chegando a 150.000% ou até 300.000% ao ano. Ninguém sabe ao certo seu índice. "Se até a Argentina maquia a inflação, imagina o Zimbábue", diz o economista Paulo Brasil, do Conselho Regional de Economia de São Paulo. "Numa situação dessas, a moeda acaba perdendo suas funções básicas: ser um meio de troca, uma unidade que define o preço e servir como reserva de valor. E o país pode ser levado de volta ao escambo."Outros índices comprovam como o Zimbábue, que já foi uma das economias mais promissoras da África, está afundando: o desemprego é de 80%; a expectativa de vida é de 37 anos para homens e 34 para mulheres; 1,8 milhão dos 12,3 milhões de zimbabuanos têm aids. Cerca de 27% da população abandonou o país desde 2000, quando o ditador Robert Mugabe deu início à desastrada redistribuição de terras que, aliada à má administração, empurraram o Zimbábue para o caos socioeconômico. Se o ditador que está há 28 anos no poder vencer as eleições, a situação pode deteriorar-se ainda mais, na opinião de Otto Saki, da organização Zimbabwe Lawyers for Human Rights. "A economia vai decair mais rapidamente, porque as políticas de Mugabe têm sido tão desastrosas que ninguém vai investir num país que não garante o direito à propriedade e onde há risco de nacionalização de empresas e bancos", disse Saki ao Estado. No dia 11, Mugabe assinou uma lei obrigando proprietários estrangeiros e brancos a passar pelo menos 51% do controle de suas empresas para zimbabuanos negros. Para Saki, só uma vitória da oposição pode mudar o quadro. "Se isso acontecer, a economia deve permanecer como está por um tempo, mas à medida que a confiança do mercado for recuperada, a situação deve melhorar."

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