EFE/David Fernández
EFE/David Fernández

Pedido de mudança no sistema de votação une opositores argentinos

Macri e Massa aparecem juntos pela primeira vez após vitória kirchnerista em primária; denúncias de fraude e violência em Tucumán motivam encontro

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

26 de agosto de 2015 | 15h54

BUENOS AIRES - Os candidatos da oposição à presidência da Argentina se reuniram nesta quarta-feira, 26, para pedir mudanças no sistema de votação para a eleição de 25 de outubro. É a primeira vez que Mauricio Macri e Sergio Massa aparecem lado a lado depois da primária obrigatória vencida no dia 9 pelo candidato kirchnerista, Daniel Scioli. A proposta será levada ao Congresso por deputados e senadores opositores, mas sua aprovação é improvável porque o kirchnerismo domina as duas Casas. 

A aproximação ocorre depois de denúncias de fraudes e da repressão policial contra opositores que questionavam a eleição de domingo para governador em Tucumán, província do norte argentino. Ambos apoiavam o mesmo candidato, José Cano, que segundo a apuração provisória, interrompida com 81% dos votos contados, obtinha 40%. O candidato kirchnerista e ex-ministro da Saúde de Cristina Kirchner, Juan Manzur, tinha 54%. Pela ampla diferença, Scioli pressionou seus rivais a admitir o resultado na região. "Não sei por que razão se reúnem, tendo em vista os resultados", afirmou o candidato governista minutos antes de os rivais se encontrarem. 

Durante uma entrevista na qual esteve também a candidata de esquerda Margarita Stolbizer, os presidenciáveis opositores repetiram o termo "feudal" para se referir ao sistema de votação. Na Argentina, o eleitor deposita num envelope uma espécie de santinho que leva o nome dos candidatos a todos os cargos em disputa na região. Cada partido ou coalizão, portanto, tem sua cédula, que fica em uma sala de votação isolada. Isso permite que um eleitor roube os santinhos do rival. Cabe aos partidos manter os papéis de seus representantes em número suficiente, mas muitos não têm estrutura para fiscalizar todas as mesas - caso do Proposta Republica (PRO), legenda de Macri que é forte só nas maiores cidades, e de pequenos partidos de esquerda. 

Além do roubo de cédulas, em Tucumán os opositores descreveram outras práticas, desde o transporte de eleitores em troca de comida até a adulteração de 200 atas de votação que alimentam a contagem. Um cinegrafista denunciou ter sido agredido depois de filmar distribuição de alimentos em um comitê kirchnerista. Durante a votação, 40 urnas foram queimadas, o que segundo a Justiça Eleitoral foi um crime, mas não uma fraude. Elas representavam 0,8% dos votos. Manzur reconheceu que algumas foram destruídas em disputas internas do peronismo - no qual o kirchnerismo é uma corrente radical. O governo afirma que parte foi queimada por opositores inconformados com a vitória do ex-ministro.

"Esse sistema está esgotado. Não pode ser que se beneficie quem tem fiscais mais fortes", disse Macri, reconhecendo que uma mudança até a eleição depende do governo. "O que ocorreu aos tucumanos não pode acontecer em toda a Argentina em outubro. É mentira que não se pode mudar isso já para 25 de outubro. Se em uma semana mudamos coisas mais complexas", afirmou Massa. 

O candidatos foram questionados se o raro encontro entre eles era um sinal de que estariam unidos em um segundo turno contra Scioli. Macri inicialmente evitou responder. Massa então tomou a iniciativa: "Não vou evitar a pergunta e direi que espero o apoio de Macri e Stolbizer." Após alguns segundos, diante do riso entre assessores provocado pela confiança de Massa, Macri comentou: "Dizem que quem espera concede. Isso é bom para nós." 

Scioli obteve 38,4% dos votos na primária, que na Argentina serve de retrato de como seria a eleição majoritária naquele momento, por ser obrigatória. Ele precisa obter 40% dos votos e uma diferença de 10 pontos sobre o segundo para ganhar no primeiro turno em outubro, ou atingir 45%. A coalizão de Macri teve 30% dos votos e a de Massa, 20,6%. 

Duas pesquisas divulgadas essa semana mostram que os porcentuais dos três permanecem semelhantes ao da primária, contrariando a expectativa de opositores de que Scioli poderia perder votos por inundações que atingiram a Província de Buenos Aires, que ele governa há oito anos e concentra 37% dos votos do país. Se o resultado se repetir, haverá segundo turno, inédito na história argentina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.