Pedidos de justiça marcam funeral de jovem negro nos EUA

Velório ocorreu em clima de calma, como havia pedido o pai de Michael Brown, e teve a presença de ativistas pelos direitos civis

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

25 de agosto de 2014 | 14h20

FERGUSON - Pedidos de justiça e referências a outros casos de violência contra jovens negros marcaram o funeral em homenagem a Michael Brown, que tinha 18 anos e estava desarmado quando foi morto por seis tiros disparados por um policial branco no dia 9 em Ferguson, Missouri.

Milhares de pessoas participaram da cerimônia, entre elas três representantes da Casa Branca, Martin Luther King III, o diretor Spike Lee e os reverendos Jesse Jackson e Al Sharpton, veteranos do movimento em defesa dos direitos civis. Também estão presentes parentes de Trayvon Martin, que tinha 17 anos quando foi morto a tiros por um guarda comunitário em 2012, e Sean Bell, morto pela polícia durante sua despedida de solteiro em um clube noturno de Nova York em 2006. A cerimônia começou às 11 horas (13 horas no horário de Brasília) e terminou quase duas horas depois.

A morte de Brown desencadeou uma onda de protestos em Ferguson e provocou uma discussão nacional sobre racismo, violência policial e militarização das forças de segurança. Por mais de duas semanas, houve manifestações diárias nas ruas de Ferguson, cidade de 21 mil habitantes próxima de St. Louis.

No domingo 24, o pai de Brown pediu que não houvesse protestos hoje. "Por favor, façam um dia de silêncio, para que nós possamos enterrar nosso filho. É tudo o que eu peço", afirmou. Apesar disso, algumas pessoas do lado de fora da igreja onde o funeral foi realizado gritavam o slogan repetido com mais frequência desde o dia 9: "hands up, don't shoot" (mãos ao alto, não atire).

Pelo menos 2.500 pessoas estavam dentro do Friendly Temple Missionary Baptist Church, na rua Dr. Martin Luther King em St. Louis. Em uma típica cerimônia religiosa negra nos EUA, havia música gospel, dança e palmas. O boné do time de basebol St. Louis Cardinals que Brown usava quando morreu estava sobre o caixão que levava seu corpo, colocado no altar da igreja. O jovem iria para a universidade dois dias depois de levar os tiros.

Os oradores lembraram a história de discriminação racial nos EUA, mencionaram outros casos de violência policial contra negros e pediram justiça para o caso de Michael Brown. "América, é o momento de lidar com o policiamento", declarou o reverendo Sharpton.

Brown foi morto pelo policial Darren Wilson, que não é visto desde o dia 9. O policial recebeu apoio de um pequeno grupo de manifestantes que marcharam em Saint Louis sábado e domingo. A maioria era branca, mas também havia alguns negros como Robin Clearmountain, que usava uma camiseta preta com a palavra "polícia".

Os defensores de Wilson dizem ter arrecadado US$ 400 mil para o pagamento das despesas que o policial terá com sua defesa judicial. Na quarta-feira 20, um grande júri começou a analisar provas e ouvir testemunhas para decidir se autoriza a abertura de um processo criminal contra Wilson.

O júri é composto por 12 pessoas, três negras, e são necessários os votos de nove para o início da ação penal. Se o número não for alcançado, o caso é encerrado.

O Departamento de Justiça abriu uma investigação paralela, para determinar se houve violação de direitos civis no caso. Cerca de 40 agentes do FBI passaram estão há dias em Ferguson, em busca de testemunhas da morte de Brown.

A polícia ainda não divulgou um relato oficial do que ocorreu no dia 9 e há versões conflitantes sobre as circunstâncias que levaram Wilson a disparar os seis tiros contra Brown. Alguns dizem que o jovem tentava se render quando foi atingido, enquanto outros afirmam que ele corria de maneira ameaçadora em direção ao policial.

Os manifestantes que ocuparam as ruas de Ferguson nas últimas duas semanas exigem que o policial seja preso e condenado. Mas ainda não está claro se haverá um processo sob acusação de homicídio, o que será decidido pelo grande júri. O procurador de Justiça responsável pelo caso, Robert McCulloch, avalia que uma decisão será anunciada apenas em meados de outubro.

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