'Pedir o fim das colônias de Israel é antissemitismo'

Jovem radical do Partido Likud e 2º na hierarquia diplomática israelense é contra Estado palestino e defende assentamentos

Entrevista com

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2013 | 02h10

O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu aceitou romper três anos de impasse no processo de paz e, na semana passada, negociadores israelenses e palestinos se encontraram pela primeira vez. No entanto, a segunda maior autoridade diplomática de Israel - atrás apenas do próprio premiê, que acumula o cargo de chanceler - é contra a criação de um Estado palestino e diz que pedir o fim das construções em assentamentos na Cisjordânia e Jerusalém Oriental é uma forma de antissemitismo. Zeev Elkin, "revelação" da ala radical do partido Likud, foi ao Paraguai para a posse do presidente Horacio Cartes e está no Brasil esta semana. A seguir, a entrevista exclusiva ao Estado.

O diálogo de paz acaba de ser retomado e o sr. é uma das vozes em Israel contrárias a um Estado palestino. Por quê?

Esse é um tema importante para Israel e posso falar sobre ele. Mas não concordo com a ideia de começar uma entrevista discutindo o Estado palestino, se há tantas coisas para se falar sobre Israel. Essa não é a principal questão.

No mundo inteiro, incluindo no Brasil, há um imenso interesse sobre a retomada das negociações. Por isso a pergunta.

Eu sei, e posso falar sobre isso. Mas hoje Israel e os territórios palestinos são o local mais estável do Oriente Médio - veja a Síria, Líbano, Egito, Iraque.

Volto à questão: por que o sr. é contra um Estado palestino?

Israel, nos 20 últimos anos, foi abrindo os olhos e entendendo melhor as consequências das negociações com os palestinos. Passamos por vários processos - Oslo I e II, as ofertas do ex-premiê Ehud Barak, a retirada de Gaza - e, depois de tudo isso, os israelenses se questionam: 'Qual é a melhor situação, agora ou há 20 anos?'. A resposta é óbvia. Se você perguntasse antes a um morador do sul de Israel se ele temia que um míssil caísse em sua casa, ele diria que você ficou louco. Hoje, ele tem medo que um foguete de Gaza atinja a escola de seus filhos.

Há duas alternativas à criação do Estado palestino: um país binacional - com o fim do sonho sionista de ter um Estado judeu -, ou israelenses ao lado de milhões de palestinos sem direitos, num sistema de apartheid. O sr. propõe outro caminho?

As soluções fáceis no Oriente Médio fracassaram. Quem tentou prever as coisas ou adotar uma posição de 'tudo ou nada' errou e trouxe mais violência. (Ehud) Barak ofereceu tudo - fronteiras de 1967, Jerusalém, etc - e a resposta foi a Segunda Intifada. Até 1967, Israel não estava na Judeia e Samara (denominação dos colonos para a Cisjordânia). Quem governava lá eram os árabes e, mesmo assim, havia guerra. Isso mostra que a razão do conflito não é o território, mas a recusa do mundo árabe de aceitar um Estado judeu dentro de qualquer fronteira.

Netanyahu determinou a volta ao diálogo com base na solução de dois Estados, mas o sr., vice-chanceler, recusa um possível acordo. Não é contraditório?

Somos uma república parlamentar, o Estado de Israel é isso. Não temos um sistema presidencialista, veja sistemas parlamentares na Europa, a Itália.

O sr. e o premiê são do mesmo partido, o Likud. E a Itália está longe de ser um exemplo de governabilidade, não?

O governo tem pessoas de posições distintas e, com a união nacional, os extremos se unem. Em Israel, temos 12 partidos e isso nos leva a coalizões de acordo com as divisões da sociedade. É a nossa realidade democrática.

E o Likud?

Sempre representamos setores mais à direita e rejeitamos o Estado palestino. Foi Netanyahu quem tomou a decisão de seguir outro caminho. Não foi fácil para ele, pois vai contra o que sempre acreditou. E Israel está perdendo a confiança na comunidade internacional: o único compromisso real dos palestinos em Oslo era que não recorreriam, unilateralmente, a instituições internacionais em busca de um Estado. Isso foi violado. Violaram Oslo e os avalistas do acordo permitiram.

A expansão de assentamentos também é apontada como uma violação do acordo, até mesmo pelos EUA. Como o sr. vê isso?

Existe uma discussão sobre a condição jurídica dos assentamentos, uma vez que Israel não ocupou a região, pois não havia um Estado lá. As colônias ocupam 3% da Cisjordânia atualmente. Não é isso que está impedindo a negociação. Quando os palestinos pedem a libertação de terroristas que mataram mulheres e crianças, isso é visto como "a favor da paz" - eu fui contra essa decisão de Netanyahu (tomada na semana passada, com a libertação de 26 presos). Mas, quando se constrói uma creche em um assentamento, somos "contra a paz". É absurdo. Israel jamais aceitou as fronteiras de 1967 e jamais aceitará. O presidente George W. Bush reconheceu isso em carta ao premiê Ariel Sharon, em 2005, e está claro para todos, incluindo os palestinos. É preciso que as regras tenham o mesmo valor para os dois lados. Nos pedem para tomar uma decisão que, caso fosse feita em outro lugar, seria considerada antissemitismo: impedir a construção só para judeus.

Pedir o fim de construções israelenses em território palestino é uma forma de antissemitismo?

Claro que sim. Imagine isso em outro lugar: integrantes de um grupo proibidos de construir casas. Todos diriam que é uma decisão racista. Não podemos ser o único país do mundo a dizer que, pelo fato de você ser judeu, está proibido de construir em Jerusalém.

O sr. se encontrará esta semana em Brasília com Antonio Patriota, chanceler de um país que reconheceu o Estado palestino e virou um dos maiores doadores a eles. Qual será sua mensagem?

Quero falar sobre nossa amizade: não há discórdia profunda entre nossos dois países. O Brasil entende que precisamos cuidar de nossa segurança, pois, sem ela, a paz é impossível. Só negociações diretas podem trazer a paz e, paradoxalmente, aqueles que apoiam iniciativas unilaterais dos palestinos na ONU são os que mais prejudicam as possibilidades desse acordo. Mas minha sugestão ao ministro será colocar o foco nos grandes interesses em comum. Israel é uma potência tecnológica e o Brasil, um líder global.

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