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Pela Culatra - O Brexit de espuma da dama de lata

A maior esperança de May, o norte-irlandês Partido da União Democrática (DUP), não topa fechar as fronteiras com a Irlanda, ainda parte da UE

Helio Gurovitz , O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2017 | 05h00

Já não estava fácil. Depois das eleições de quinta-feira é que o Brexit não sai mesmo. A proposta de saída da União Europeia (UE) da premiê Theresa May variava entre a incógnita e o delírio. No papel, May propôs um divórcio total. Na prática, queria o fechamento de fronteiras para aquilo que interessa (imigrantes), mas prometeu preservar a abertura do que não interessava barrar (livre-comércio).  

Recusava-se a pagar a multa de £ 50 bilhões devida à UE e esperava, com as eleições, obter um mandato forte para negociar a saída. “Não sabemos ainda a posição britânica nas negociações do Brexit”, dizia a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini. Agora, nem adianta saber. Tudo o que ela oferecer será visto pelos europeus como espuma, diante da fragilidade do Partido Conservador para aprovar qualquer coisa no Parlamento. 

Para construir maioria, May precisa de partidos pequenos. Será difícil. Escoceses e liberais-democratas são contra o Brexit. A maior esperança de May, o norte-irlandês Partido da União Democrática (DUP), não topa fechar as fronteiras com a Irlanda, ainda parte da UE. O eleitorado do norte da Inglaterra e de áreas que aderiram em peso ao populismo antieuropeu preferiu desta vez a demagogia do trabalhista Jeremy Corbyn. 

Deu de ombros ao passado trotskista, favorável a Chávez, Hamas, Hezbollah, Irã e IRA – e caiu na conversa fiada de cobrar mais impostos, nacionalizar ferrovias e gastar bilhões em saúde, aposentadorias e programas sociais. O plano de Cebolinha de May lhe rendeu perdas no Parlamento e garantiu a sobrevida da extrema esquerda na liderança trabalhista. A dúvida agora é: se conseguir montar um governo, quanto tempo ela ainda dura no poder? E depois, Corbyn vem aí?

As rupturas que ninguém previu

Em artigo na Review of International Political Economy, os cientistas políticos Mark Blyth e Matthias Matthijs investigam por que ninguém foi capaz de antever rupturas como a vitória do Brexit ou de Donald Trump. Eles ressuscitam ideias do polonês Michal Kalecki, um crítico do keynesianismo do século passado, para defender que nos esquecemos de levar em conta os fatores macroeconômicos e institucionais que induzem bolhas financeiras, desigualdade e populismo. 

 

Oriente Médio não é  para amadores

Eis como Iyad el-Baghdadi, ativista palestino refugiado na Noruega, resumiu no Twitter a confusão no Oriente Médio: “Os Estados Unidos exerciam hegemonia. Só o Irã resistia. Então, veio Obama e tentou retirar-se da região, em plena onda pró-democracia. Esperto. Confusos, sauditas, emiradenses, cataris, iranianos e turcos passaram, cada um, a cuidar de si. Intervieram no Bahrein, Iêmen, Síria e Egito. Para piorar, Obama estendeu a mão ao Irã, enquanto apoiava sauditas, Estados do Golfo e rebeldes sírios.

O Estado Islâmico (EI) aproveitou-se da confusão. Putin interveio na Síria e, com o Irã, lançou refugiados na Europa. Ajudou a eleger um narcisista nos EUA, que entrou no meio da balbúrdia gritando. Sauditas e emiradenses tentaram usá-lo contra o Irã e romperam com o Catar, onde há uma base americana. Enquanto cada um pega no pescoço do outro, o EI ataca o Irã. No meio de tudo isso, países são esmagados, arrebentados, torturados e bombardeados por terroristas, tiranos e pelo Ocidente. E os ocidentais estão perdidos entre eleger ou resistir a populistas, ficar histéricos com a insegurança e cantar Kumbaya. Bem-vindo a 2017”.

 

O erro que levou à fonte da NSA

Não foi difícil para o FBI descobrir quem fez vazar um relatório da Agência Nacional de Segurança (NSA) sobre hackers russos ao site The Intercept. Os jornalistas tomaram cuidado, mas cometeram um erro: forneceram às autoridades uma cópia, que lhes permitiu identificar a impressora e restringir a busca a seis suspeitos, entre os quais a responsável, Reality Winner. “Todo mundo comete erros, mas esse foi pior”, escreveu Barton Gellman, jornalista do Washington Post que revelou Edward Snowden com o fundador do Intercept, Glenn Greenwald.

 

O pêndulo entre liberdade  e intervenção

Em seu novo livro, The Limits of the Markets (Os limites dos mercados), o economista Paul de Grauwe, da London School of Economics, discute o movimento pendular entre intervenção governamental e liberdade econômica ao longo da história. Ele afirma que há um risco de exagero na reação ao liberalismo das últimas décadas. Em vez de mais protecionismo e mais autoritarismo, os governos deveriam cuidar das deficiências inerentes aos mercados, em áreas como meio ambiente e desigualdade.

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