REUTERS/Yves Herman
REUTERS/Yves Herman

Pela primeira vez, família real da Bélgica fala em 'arrependimento' por colonização no Congo

Rei da Bélgica expressa pela primeira vez "pesar" pelo passado colonial no Congo

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2020 | 14h25

BRUXELAS - O rei Philippe, da Bélgica, expressou nesta terça-feira, 30, pela primeira vez na história do país o seu "mais profundo arrependimento pelas feridas" infligidas durante o período colonial no Congo, em uma carta dirigida ao presidente da atual República Democrática do Congo (RDC).

"Quero expressar meus mais profundo arrependimento por estas feridas do passado, cuja dor é revivida hoje pela discriminação ainda presente em nossas sociedades", afirmou o rei belga na carta enviada ao presidente da RDC, Felix Tshisekedi, por ocasião do 60º aniversário da independência do país.

No texto, o monarca evoca a época do rei Leopoldo II sem citar o nome do soberano, cuja gestão do Congo Belga é considerada brutal. Estudos falam que cerca de 10 milhões de africanos morreram enquanto o território pertencia ao monarca. 

"Na época do Estado Livre do Congo (a partir de 1885, quando o território africano era propriedade do ex-rei Leopoldo II) foram cometidos atos de violência e crueldade que ainda pesam sobre nossa memória coletiva", escreveu Philippe, que reina desde 2013. O soberano também reconhece que neste território, sob controle da Bélgica entre 1908 a 1960, aconteceram "sofrimentos e humilhações".

O Congo Belga conquistou sua independência em 30 de junho de 1960 e passou a ser chamado de República Democrática do Congo. 

Protestos

Em pleno movimento mundial contra o racismo iniciado após a morte de George Floyd nos Estados Unidos, que na Bélgica provocou críticas ao passado colonial do país, o rei Philippe ressaltou na carta seu compromisso de "combater todas as formas de racismo". 

Muitas estátuas do soberano entre 1865 e 1909 foram atacadas em Bruxelas e em Antuérpia, em sua maioria com tinta vermelha para simbolizar o sangue dos congoleses. Alguns municípios decidiram removê-las do espaço público. 

Em uma campanha que registrou mais de 80 mil assinaturas, o coletivo de militantes anticolonialistas "Vamos reparar a História" pede a remoção das imagens deste rei, acusado pela "morte de mais de 10 milhões de congoleses".

Por meio de empresas concessionárias, Leopoldo II recorreu ao trabalho forçado para extrair borracha do Congo. Abusos foram documentados, como cortar as mãos dos trabalhadores considerados improdutivos.

Segundo a maioria dos historiadores, a violência não parou após a cessão do Congo ao Estado belga em 1908 e, durante décadas, foi mantido um sistema de separação entre negros e brancos, semelhante ao apartheid na África do Sul.

"Encorajo a reflexão iniciada por nosso Parlamento para que nossa memória seja definitivamente pacificada", afirmou, em referência a um acordo entre grupos políticos para criar uma comissão parlamentar sobre a memória colonial.

A primeira-ministra belga, Sophie Wilmès, afirmou que chegou o momento de que a Bélgica inicie o "caminho da investigação, da verdade, da memória" sobre seu passado colonial, "sem tabus". 

Entre 2000 e 2001, outra comissão examinou o contexto do assassinato em janeiro de 1961 de Patrice Lumumba, então primeiro-ministro da RDC, e apontou a "responsabilidade moral" de "alguns ministros e outras figuras" belgas. 

O jornal Le Soir elogiou o "gesto necessário, que engrandece o rei e o país", enquanto o La Libre lamentou que o documento não tenha apresentado um pedido de desculpas". "Talvez aconteça ao final do trabalho da comissão parlamentar", completou a publicação.  / AFP

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