AP Photo/Hadi Mizban
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Pela primeira vez, Irã sugere incluir mísseis balísticos em negociações nucleares

Chanceler Mohammad Javad Zarif disse em entrevista à emissora 'NBC News', no entanto, que país exigira uma contrapartida drástica, como a suspensão das vendas de armas americanas para Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, por exemplo

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2019 | 11h56

WASHINGTON - O chanceler do Irã, Mohammad Javad Zarif, sugeriu pela primeira vez que o programa de mísseis balísticos de seu país poderiam fazer parte de uma negociação com os Estados Unidos, uma possível abertura para conversas em um momento de grande tensão entre Teerã e Washington.

O chanceler iraniano disse, no entanto, que para considerar essa possibilidade o país exigiria uma medida drástica dos EUA - como a suspensão das vendas de armas americanas para a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, dois aliados importantes dos EUA no Golfo Pérsico.

Mas só o fato de Zarif mencionar essa possibilidade representa uma mudança na política de seu país. O programa de mísseis balísticos do Irã é controlado pela Guarda Revolucionária, que responde apenas ao líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei.

Zarif falou sobre os mísseis balísticos do país em entrevista exibida pela emissora NBC News na noite de segunda-feira - ele está nos EUA para uma série de reuniões na ONU. 

Ele disse que os Emirados Árabes Unidos gastaram US$ 22 bilhões e a Arábida Saudita US$ 67 bilhões em compra de armamentos - principalmente americanos - no ano passado enquanto que Teerã gastou US$ 16 bilhões.

"Esses armamentos americanos que irão para a nossa região, deixando (o ambiente) propício para uma 'explosão'", disse Zarif. "Então, se eles quiserem falar sobre os nossos mísseis, primeiro precisam parar de vender essas armas, incluindo mísseis, para nossa região."

Desde que chegou à Casa Branca, Trump tem tratado as vendas de armas dos EUA para o Oriente Médio como um assunto de grande importância para a economia americana, por isso não está claro como ele reagiria a reduzir essas vendas.

Os comentários de Zarif marcaram a primeira vez que uma autoridade iraniana mencionou até mesmo a possibilidade de conversações sobre os mísseis iranianos.

Desde a Revolução Islâmica de 1979 e a tomada da Embaixada dos EUA em Teerã, o Irã enfrentou várias sanções econômicas. Isso reduziu a capacidade do país de comprar armas no exterior. Embora as nações árabes do Golfo tenham adquirido aviões de combate avançados, o Irã ainda conta com os jatos de caça americanos anteriores a 1979, bem como com antigos MiGs soviéticos e outros aviões.

Diante desse déficit tecnológico, o Irã investiu pesadamente em seu programa de mísseis balísticos - motivado pelas sanções e pela memória dos ataques com mísseis lançados por Saddam Hussein durante a sangrenta guerra do Irã com o Iraque nos anos 80.

Khamenei teria restringido a gama de mísseis balísticos fabricados no Irã a 2.000 quilômetros (1.240 milhas). Apesar de isso manter a Europa fora de alcance, significa que os mísseis iranianos podem atingir grande parte do Oriente Médio, incluindo Israel e bases militares americanas na região.

Ao retirar os EUA do acordo, Trump culpou, em parte, o fato de o texto não abordar o programa de mísseis balísticos do Irã. Os EUA temem que Teerã possa usar sua tecnologia de mísseis e seu programa espacial para construir mísseis balísticos intercontinentais com capacidade nuclear, algo que os iranianos negam que queiram fazer. / AP

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