Pela primeira vez, líder assume mortes na ditadura argentina

Pela primeira vez desde a volta da democracia argentina, há 23 anos, um dos líderes da repressão (1976-1983) assumiu, pessoalmente, a responsabilidade pelas torturas e mortes de opositores ao regime militar e eximiu seus subordinados. Em um longo depoimento à Justiça Federal, o vice-almirante reformado Luis María Mendía, de 82 anos, que cumpre prisão domiciliar, reconheceu: ?Sou o único responsável pelos atos do meu batalhão. E acho injusto e ilegal que muitos deles hoje estejam presos?. No depoimento de 40 páginas, Mendía chama opositores daquela época de ?terroristas?. Diz que era ?uma guerra contra a subversão? e que todas as medidas obedeceram ordens do governo. Vôos da morte Mendía foi acusado pelo capitão de corveta Adolfo Scilingo, nos anos 1990, de planejar os chamados ?vôos da morte? - quando as vítimas da ditadura eram lançadas ao rio da Prata. Atualmente, Scilingo cumpre 640 anos de prisão. ?Em nenhum momento meus subordinados excederam ordens superiores?, insistiu Mendía, nesta quinta-feira. Mendía era comandante das operações navais quando a Escola de Mecânica da Armada (ESMA, ligada à Marinha) foi transformada em centro de tortura. Estima-se que cerca de 5 mil pessoas passaram por ali, como recordou Carolina Varsky, diretora do Programa Memoria e Luta contra a Impunidade do Terrorismo de Estado, do CELs (Centro de Estudos Legais e Sociais).Investigação A ?causa ESMA?, como ficou conhecida, é o principal braço da atual investigação sobre os crimes cometidos durante a ditadura argentina, com cerca de 30 mil desaparecidos, de acordo com as entidades de direitos humanos. Nos últimos meses, o juiz federal Sérgio Torres voltou a interrogar militares acusados de participação direta naqueles crimes da que foi batizada de ?mega-causa da ESMA?. Nesta quinta-feira, ao citar nomes dos que estiveram naquele campo de tortura, o juiz Torres lembrou de mais de 600 pessoas, incluindo uma menina de quatro anos, presa, na época, com a mãe, Miriam Dvatman.

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