Nicholas Kamm / AFP
Nicholas Kamm / AFP

Pela primeira vez, presidente dos EUA declara que reconhece o genocídio armênio

Biden reconheceu formalmente que os assassinatos e deportações sistemáticas de centenas de milhares de armênios pelas forças do Império Otomano no início do século 20 foram genocídio, sob risco de acirrar tensões com a Turquia

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2021 | 13h16
Atualizado 24 de abril de 2021 | 14h50

WASHINGTON - O presidente Joe Biden reconheceu formalmente que os assassinatos e deportações sistemáticas de centenas de milhares de armênios pelas forças do Império Otomano no início do século 20 foram genocídio - usando um termo para designar as atrocidades que seus predecessores da Casa Branca evitaram por décadas, por preocupações de alienação da Turquia. 

Logo após o anúncio, presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, acusou "terceiros" de interferir nos assuntos internos de seu país. "Não beneficia a ninguém que os debates - que os historiadores deveriam realizar - sejam politizados por terceiros e se tornem um instrumento de interferência em nosso país", disse Erdogan em uma mensagem em Istambul. 

Um pouco antes, o ministro das Relações Exteriores turco, Mevlut Cavusoglu, disse que a Turquia "rejeita totalmente" a decisão dos EUA, que ele disse ter sido baseada "apenas no populismo". "Não temos nada a aprender com ninguém sobre nosso próprio passado. O oportunismo político é a maior traição à paz e à justiça", disse Cavusoglu no Twitter, acusando o governo americano de tentar reescrever a história.

Com o reconhecimento, Biden cumpriu uma promessa de campanha que fez há um ano - neste sábado, se celebra o Dia da Memória do Genocídio Armênio - para reconhecer que os eventos de 1915 a 1923 foram um esforço deliberado para exterminar os armênios. 

Biden usou uma proclamação presidencial para fazer o pronunciamento. Embora os presidentes anteriores tenham oferecido reflexos sombrios desse momento da história por meio de proclamações no dia da lembrança, eles cuidadosamente evitaram usar o termo genocídio por temer que isso complicasse as relações com a Turquia - um aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e importante potência no Oriente Médio. 

Mas Biden fez campanha com a promessa de fazer dos direitos humanos um guia central de sua política externa. Ele argumentou, ao fazer a promessa no ano passado, que deixar de chamar as atrocidades contra o povo armênio de genocídio abriria o caminho para futuras atrocidades em massa. 

Estima-se que 2 milhões de armênios foram deportados e 1,5 milhão foram mortos nos eventos conhecidos como Metz Yeghern. Durante um telefonema na sexta-feira, Biden informou a Erdogan sobre seu plano de divulgar o comunicado, disse uma pessoa familiarizada com o assunto que não foi autorizada a discutir publicamente a conversa privada e falou sob condição de anonimato.

Relações prejudicadas

O genocídio armênio é reconhecido por cerca de 30 países e pela comunidade histórica - o Brasil está entre os que não reconhecem. Embora não traga consequências legais, a designação incomoda Ancara, que rejeita o termo "genocídio" e nega qualquer menção a extermínio, enquanto evoca massacres recíprocos com um fundo de guerra civil e fome que deixou centenas de milhares de mortos dos dois lados.

Cem membros do Congresso pediram a Biden em uma carta que cumprisse com a promessa eleitoral de reconhecer o genocídio armênio. O Congresso americano reconheceu formalmente os massacres como genocídio em dezembro de 2019 em uma votação simbólica.

"O vergonhoso silêncio do governo dos Estados Unidos com relação ao fato histórico do genocídio armênio tem sido mantido por tempo demais e deve acabar", diz a carta.

Depois que o Parlamento holandês aprovou uma moção em fevereiro exigindo o governo a reconhecer o genocídio, a Turquia disse que a medida "buscava reescrever a história com base em motivações políticas"./AP e AFP

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