Pela riqueza, tolera-se o regime autocrático chinês

Classe média está cada vez mais disposta a ser flexível

Andrew Jacobs, The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2011 | 00h00

No decorrer dos 40 anos desde que o presidente Richard Nixon estabeleceu relações diplomáticas com a China, políticos americanos não desistiram da ideia de que a crescente massa de empreendedores chineses e outros indivíduos combativos de nível universitário um dia acharia a democracia eleitoral irresistível. Mas um passeio por um dos luxuosos shopping centers de Pequim acaba rapidamente com esses conceitos idealistas - e em vez disso nos faz pensar se os autocratas da China não terão descoberto um modelo flexível de governo duradouro.

No Oriental Plaza, jovens profissionais vestindo Nike e Abercombie & Fitch declaram sua admiração pelo governo do Partido Comunista. "Qualquer mudança no sistema político atiraria a China na desordem", disse Guo Ting, assistente de escritório, de 30 anos. "Nossos líderes estão fazendo um excelente trabalho."

Trabalhadores de colarinho branco, com formação universitária, como a sra. Guo, são representantes emblemáticos de uma classe média chinesa cada vez mais confiante e disposta a ser mais flexível com o governo, apesar de suas restrições e imperfeições. Esse grupo considera que tais falhas são compensadas pelo contínuo crescimento econômico de dois dígitos, enquanto aprendeu a apreciar a estabilidade social sob um regime autocrático. Isso não quer dizer que a oposição à situação não exista. Os camponeses expropriados continuam fazendo manifestações. Os dissidentes não deixam de reivindicar o pluralismo, embora as autoridades tratem de silenciá-los, temendo que aqui ocorra uma "revolução de jasmim". E jovens insatisfeitos compartilham online ásperas críticas a seus líderes - enquanto os censores não deletam as mensagens.

Mas a maioria dos especialistas ocidentais concorda que os comunistas no governo não correm o risco de ser depostos tão cedo. "Eles se mostraram muito mais flexíveis do que os governos dos Egitos e das Tunísias deste mundo", disse Kevin O"Brien, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, dizendo-se maravilhado com "sua capacidade de se adaptar a novas circunstâncias".

Essa capacidade darwiniana de evoluir nasceu da experiência de quase morte do partido, em 1989, quando estudantes e intelectuais ocuparam a Praça Tiananmen durante sete semanas exigindo eleições livres, o fim das restrições à imprensa, da corrupção e do nepotismo. Nos anos que se seguiram à violenta repressão dos protestos, o regime descobriu como satisfazer muitos durante a maior parte do tempo - o suficiente para dissuadir a maioria dos cidadãos de optar pelas manifestações pró-democracia.

Até pouco tempo atrás, os líderes da China também prometiam progressivas reformas políticas, embora os recentes tumultos árabes, associados aos preparativos de uma mudança na alta cúpula, em 2012, tenham efetivamente acabado com essas perspectivas. Mas, independentemente de como sejam interpretados os cálculos, a vida sem dúvida melhorou para a maioria dos chineses. Nos últimos 20 anos, a renda urbana per capita anual mais que triplicou, chegando a US$ 3.100 ao ano; a expectativa de vida deu um salto de mais de seis anos, chegando a uma média de idade de 75 anos; e o número dos adultos analfabetos foi reduzido em 46 milhões. As cidades chinesas, com seu excitante burburinho comercial e grandes extensões de enormes e reluzentes prédios residenciais, são o retrato do otimismo do país. "Um crescimento de 10% resolve muitos problemas", diz o professor O"Brien.

Mas, por si mesmo, o crescimento econômico não explica a ampla aversão às mudanças políticas detectada entre intelectuais e profissionais. Para os 70 milhões de membros do Partido Comunista e para a crescente classe empresarial chinesa, o atual acordo traz grandes vantagens para aqueles que jogarem de acordo com as regras. Os benefícios podem incluir empréstimos a juros baixos oferecidos por bancos estatais e o favorecimento junto a uma burocracia onipotente capaz de esmagar qualquer empresa que tente decolar fora do clube privilegiado dos grandes empreendimentos de propriedade governamental.

O arranjo atual incentiva a lealdade ao partido, ainda que tenha como base o instinto de sobrevivência e uma dose considerável de ganância. Li Fan, diretor do World and China Institute, uma ONG de Pequim que estuda a reforma política, disse que uma democracia eleitoral ameaçaria os benefícios que as elites empreendedoras desfrutam sob o sistema atual. "Aqueles que prosperaram com a reforma econômica não estão interessados em partilhar o poder nem os espólios da prosperidade com aqueles que estão nas camadas inferiores da sociedade", disse.

O mesmo pode ser dito dos 300 milhões de membros da crescente classe média chinesa, muitos dos quais parecem temer que o sufrágio universal conceda a seus compatriotas camponeses uma fatia desproporcional do poder. A demonização da democracia emana de líderes do alto escalão como Wu Bangguo, principal legislador do partido, que no mês passado alertou o país para o risco de uma democracia eleitoral levar a China "a cair no abismo da desordem interna". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA E AUGUSTO CALIL

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