AP Photo/Pablo Martinez Monsivais
AP Photo/Pablo Martinez Monsivais

Peña Nieto cancela visita após Trump exigir que México pague por muro

Presidente mexicano desiste de viagem aos EUA depois de americano tuitar que líder vizinho nem precisaria embarcar se não estivesse disposto a arcar com custo de barreira na fronteira

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2017 | 15h03
Atualizado 26 Janeiro 2017 | 21h06

A relação entre os Estados Unidos e o México atingiu nesta quarta-feira seu ponto mais tenso da história recente, com a decisão do presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, de cancelar a visita que faria a Washington na terça-feira e a declaração de Donald Trump de que buscará “outro caminho” para forçar o país vizinho a pagar pelo muro que prometeu construir na fronteira. 

O confronto ameaça a estabilidade de um relacionamento que vai além do comércio e abrange questões de segurança, combate ao tráfico de drogas e imigração. Com uma fronteira de 3.200 km, os dois países aprofundaram seus laços nas últimas três décadas, em grande parte em razão do Nafta, o acordo de livre-comércio que Trump ameaça abandonar. 

“Eu disse muitas vezes que o povo americano não vai pagar pelo muro”, afirmou Trump durante um encontro do Partido Republicano. “A menos que o México esteja disposto a tratar os EUA de maneira justa, com respeito, esse tipo de encontro não daria frutos e eu quero percorrer outro caminho.”

Poucas horas antes, Peña Nieto havia anunciado pelo Twitter que não iria à reunião com Trump. Um dia antes, o presidente americano assinou um decreto determinando o início “imediato” da construção da obra, que se transformou em símbolo de sua campanha contra a imigração ilegal. Trump também anunciou medidas que levarão ao aumento da deportação de pessoas que vivem sem documentos nos Estados Unidos, a maioria das quais de origem mexicana.

Pressionado pela opinião pública mexicana, Peña Nieto fez um pronunciamento pela TV na noite de quarta-feira, no qual afirmou que seu país não pagaria pelo muro.

“É um desastre que provocará muito mais dano para o México, que é extremamente dependente dos Estados Unidos”, afirmou Peter Hakim, presidente emérito do Diálogo Interamericano, que disse nunca ter visto um momento tão ruim na relação bilateral.

Danos. O México é o segundo maior destino das exportações dos EUA, que vendeu ao país bens no valor de US$ 212 bilhões nos primeiros 11 meses de 2016, o equivalente a 15% do total. Na mão contrária, o México exportou US$ 271 bilhões aos EUA no mesmo período, o que representou 80% de suas vendas externas.

No discurso desta quinta-feira, Trump indiciou que pretende usar a dependência comercial do México para forçar o país a pagar pelo muro. O caminho seria a reforma tributária em discussão no Congresso, que reduz o imposto de renda sobre exportações americanas e aumenta o incidente sobre as importações. “É um incentivo para que as empresas não importem do México”, avaliou o brasileiro Aluisio Lima-Campos, especialista em comércio e professor da American University.

Segundo ele, o impacto iria além do comércio. Com barreira para aceder ao mercado dos EUA, muitas empresas americanas deixariam de investir no país vizinho. Além da mudança de impostos sobre exportações e importações, o presidente americano ameaça impor tarifas sobre bens exportados por companhias que transfiram suas linhas de montagem dos EUA para o país vizinho.

Mas a deterioração econômica no México pode agravar os outros problemas que são prioridade na agenda de Trump: a imigração ilegal e o tráfico de drogas. Sem empregos em seu país, mais mexicanos tentarão cruzar a fronteira em busca de trabalho nos EUA. “Nós estabelecemos uma cooperação no combate às drogas, mas tudo isso está em xeque agora”, disse Melvyn Levitsky, professor da Universidade de Michigan e ex-embaixador dos EUA no Brasil.

Tanto ele quanto Hakim afirmaram que a situação de Peña Nieto é extremamente difícil. “O México é um grande país, é uma democracia e o presidente tem de responder à sua base interna”, observou o embaixador. 

Na avaliação de Hakim, a hostilidade de Trump em relação ao México reflete seu desprezo pela região como um todo. “O muro com o México é um muro com a América Latina”, afirmou. “O confronto entre os dois países vai agravar uma série de problemas relacionados às drogas e à imigração.”

 

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