Peña Nieto quer provar que o PRI mudou

Novo presidente toma posse hoje com a tarefa de diminuir a violência ligada às drogas sem dar razão ao críticos que acusam seu partido de negociar com narcotraficantes

ALAN RIDING, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2012 | 02h05

O presidente de saída hoje do México, Felipe Calderón, nunca foi muito apreciado. Sua eleição em 2006 foi ofuscada por acusações de fraude pelo rival de esquerda. No cargo, teve de combater uma profunda recessão provocada pela crise financeira global. E durante todo o seu mandato Calderón promoveu uma "guerra contra as drogas" conduzida pelo Exército que provocou entre 65 mil e 100 mil mortes. Não surpreende portanto o fato de muitos mexicanos estarem ansiosos para sua saída do governo.

Não há muito entusiasmo com relação ao que virá em seguida. O novo presidente, Enrique Peña Nieto, ex-governador com pinta de "jovem bonito", representa a restauração do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o país entre 1929 e 2000 com uma mistura de repressão, corrupção, cooptação e fraude eleitoral. A novidade é que Peña Nieto foi eleito num escrutínio limpo, embora com apenas 38% dos votos numa disputa que envolveu três candidatos.

A realidade é que os mexicanos votaram menos para o candidato do PRI e mais contra os candidatos do esquerdista Partido da Revolução Democrática (PRD) e do conservador Partido da Ação Nacional (PAN), de Calderón. Muitos da esquerda e da direita temem que os instintos autoritários do PRI ressurjam. Peña Nieto, de 46 anos, insiste que seu partido aderiu às novas regras do jogo.

Ele tem algumas coisas a seu favor. A economia do país vem crescendo novamente, com uma combinação de dois fatores: redução do desemprego interno e menos postos de trabalho nos Estados Unidos, o que levou a uma forte queda da migração ilegal para o norte. E graças ao Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), em vez de exportar pessoas, o México agora é um grande exportador de carros, TVs, peças de aviões e outros produtos manufaturados.

Peña Nieto também poderá ter um governo melhor do que o de Calderón ou do seu predecessor do PAN, Vicente Fox, cujas tentativas de reforma foram obstruídas invariavelmente pelo PRI e pelo PRD no Congresso. O PAN agora está apoiando o plano do novo governo de abrir o debilitado monopólio do petróleo, a Pemex, para o capital privado e a tradicional subserviência do PRI ao seu líder deve fortalecer a posição de Peña Nieto nas negociações com outros centros de poder.

Muita coisa resta a ser feita. A corrupção, há muito tempo associada a governos do PRI, não diminuiu nos últimos 12 anos. Uma reforma fiscal é necessária com urgência: o México tem o menor patamar de receitas fiscais em relação ao PIB entre todos os membros da OCDE. Os monopólios prosperam, especialmente o império das comunicações controlado por Carlos Slim, o homem mais rico do mundo.

Os sindicatos, que sempre foram aliados do PRI, hoje são mais independentes. O líder sindical dos trabalhadores da Pemex, Carlos Romero Deschamps, espera grandes recompensas para seus membros em troca de uma reforma do sistema energético. Elba Esther Gordillo, líder do sindicato dos professores desde 1989 (recentemente reeleita até 2018) continua a ser o principal obstáculo para uma muito necessária reforma do sistema educacional.

A maior dor de cabeça herdada por Peña Nieto, entretanto, é a "guerra contra as drogas". Calderón diz que um número importante de "chefões" foi morto ou preso. E muitos das dezenas de milhares de mortos foram vítimas da guerra por territórios travada por cartéis rivais. Mas mesmo em meio a sinais de que a violência pode ter atingido seu ápice, o apoio doméstico à sua estratégia já desapareceu há muito tempo.

Os mexicanos acham que estão envolvidos numa batalha americana em solo mexicano. Segundo Calderón, os cartéis do México ganham US$ 20 bilhões por ano na venda da droga para os consumidores americanos, mais do que o suficiente para comprar armamentos sofisticados ao norte da fronteira. E depois que os eleitores em Colorado e no Estado de Washington aprovaram o uso recreacional da maconha no mês passado, é difícil explicar porque mexicanos devem morrer para impedir que a erva seja contrabandeada para o norte.

Como candidato, Peña Nieto mostrou-se alarmado com o preço que o México paga pela guerra contra as drogas e sugeriu que conseguirá reduzir a violência. Não explicou como. Em reunião em Washington, na terça-feira, ele e o presidente Barack Obama se comprometeram a manter uma cooperação mais estreita na área da segurança, mas não ficou claro o que isso significará exatamente.

Uma explicação habitual para o aumento da violência desde que o PRI deixou o governo há 12 anos é que os chefões do partido estavam mancomunados com os cartéis da droga e, desnecessariamente, Calderón, "mexeu num ninho de vespas". Em resposta, assessores de Peña Nieto rechaçaram qualquer ideia de acordo com os chefes da droga e prometeram equipar e ampliar a polícia federal para tornar essa guerra mais eficaz.

Uma estratégia mais prudente seria adotar a política empreendida pelos outros dois países envolvidos pelo comércio da droga mais lucrativa.

Nem a Colômbia, um dos maiores produtores de cocaína, tampouco os Estados Unidos, o maior consumidor, estão sendo dilacerados pela violência ligada ao tráfico. Ambos aprenderam a coexistir com o problema e optaram pela contenção, deixando a guerra contra o tráfico para o México.

A prioridade de Peña Nieto é tornar o México um lugar mais seguro para seus cidadãos, para os turistas e as empresas. E isso somente será possível se reconhecer que o tráfico continuará enquanto existir um mercado lucrativo bem ao lado.

Certamente, se a guerra sair das manchetes nos próximos meses, isso não significará que os cartéis foram derrotados. Mas simplesmente que o novo governo está colocando os interesses do México na frente daqueles dos Estados Unidos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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