Doug Mills/The New York Times
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Pence culpa enganosamente os picos de coronavírus por aumento nos testes

Em uma ligação com governadores, vice-presidente repetiu discurso de Trump e minimizou novos surtos

Katie Rogers e Jonathan Martin / The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2020 | 13h02

WASHINGTON - O vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, incentivou os governadores na segunda-feira, 15, a difundir a explicação de que um aumento nos testes foi uma das razões por trás dos novos surtos de coronavírus, mesmo que os dados dos testes demonstrem que tal alegação é enganosa. 

"Gostaria de encorajar todos vocês a garantir e a continuar explicando a seus cidadãos a magnitude do aumento nos testes", disse Pence em uma ligação com os governadores, cujo áudio foi obtido pelo jornal The New York Times.

"Na maioria dos casos em que estamos vendo um aumento em número (de casos), isso é mais resultado do trabalho extraordinário que vocês estão realizando (em testes). Também incentivem as pessoas com a notícia de que estamos reabrindo com segurança o país", recomendou.

A mensagem enganosa também foi enfatizada publicamente pelo presidente Donald Trump em uma reunião no início do dia. "Se pararmos de testar agora teremos muito poucos casos, se houver", disse o presidente. 

As médias de casos dos últimos sete dias em vários estados com surtos de coronavírus aumentaram desde 31 de maio. Em pelo menos 14 estados, casos positivos superaram o número médio de testes que foram administrados.

Dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças mostram que as hospitalizações por coronavírus diminuíram nacionalmente, embora os casos positivos tenham aumentado e o número de mortes atribuídas à doença causada pelo coronavírus possa aumentar à medida que mais dados estiverem disponíveis.

Como chefe da força-tarefa contra o vírus, Pence costuma usar suas aparições públicas para minimizar a gravidade da pandemia. Na semana passada, foi criticado por tirar uma foto com dezenas de funcionários da campanha de Trump que estavam juntos sem usar máscaras.

No próximo sábado, Pence deve juntar ao presidente em um comício em Tulsa, Oklahoma, apesar das preocupações de que o local fechado possa promover a propagação do vírus. A campanha de Trump pediu aos participantes que assumam o risco. 

Na ligação privada com os governadores, Pence novamente minimizou o tamanho dos novos surtos. O vice-presidente também disse que a disseminação do vírus agora está bem contida e adotou um termo que Trump usou para o vírus - "brasas" que podem ser rapidamente eliminadas. 

Especialistas, incluindo alguns do governo Trump, alertaram que eliminar o coronavírus não é tão simples. O Dr. Anthony S. Fauci, o principal especialista em doenças infecciosas do país, alertou na semana passada que "temos algo que acabou sendo o meu pior pesadelo", uma referência à capacidade do vírus se espalhar rapidamente. 

A Dra. Deborah L. Birx, que está coordenando a resposta do governo, reiterou que as taxas de hospitalização pelo vírus estavam diminuindo em todo o país, embora alguns estados tenham visto um aumento. Ela disse que ainda não houve aumento nos locais que tiveram protestos, embora tenha dito que os dados começaram a mostrar "estímulos iniciais" em Minneapolis.

O governador Larry Hogan, de Maryland, um republicano que criticou publicamente a resposta precoce do governo Trump ao vírus, disse ao vice-presidente que havia uma "necessidade urgente" de que o governo e os membros do Congresso trabalhassem juntos em outro projeto de alívio de coronavírus. 

"Os Estados serão confrontados com dezenas de milhares de demissões", disse Hogan, acrescentando que muitos governadores estavam finalizando os orçamentos estaduais no final de junho. Pence disse que qualquer outra legislação provavelmente aconteceria em meados de julho e que a porta estaria aberta para negociações entre a administração e o Congresso. 

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