Pensando o pior com o Irã

Diplomatas e especialistas parecem cada vez mais convencidos de que Teerã, cedo [br]ou tarde, terá a bomba; resta agora saber o que será feito depois: contenção ou ataque?

DAVID E. SANGER, THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

16 de março de 2010 | 00h00

Durante alguns meses, em meados da década de 60, o presidente americano Lyndon B. Johnson e seus assessores avaliaram secretamente a possibilidade de lançar bombardeios sobre as instalações nucleares da China, em vez de esperar que Mao Tsé-tung chegasse à bomba. Então, eles se deram conta dos custos que mais uma guerra na Ásia representaria e decidiram tentar uma política de contenção - a convivência com um regime ameaçador, tentando ao mesmo tempo dissuadir seus avanços mais perigosos.

Funcionou. Cerca de cinco décadas mais tarde, muitos americanos acordam todos os dias mais preocupados com nossa dívida de trilhões de dólares com a China do que com o arsenal chinês. Pequim evoluiu e se tornou um concorrente militar até certo ponto administrável, pelo menos por enquanto.

Hoje, ressurge uma versão do mesmo debate sobre a adoção de uma política de contenção como resposta mais adequada em relação, desta vez, ao Irã. Importantes estrategistas, como Zbigniew Brzezinski, defendem que, o que funcionou na época da Guerra Fria, funcionará com os aiatolás. A revista Foreign Affairs deste mês traz um artigo, After Iran Gets the Bomb (Depois que o Irã conseguir a bomba), que aponta para cenários para tratar do que, segundo muitos, é inevitável.

Ao mesmo tempo, o governo se apressa em instalar sistemas antimísseis e uma presença naval no Golfo - um esforço para conter o poderio do Irã na região, dizem as autoridades, mas que com certeza parece a montagem concreta de uma política de contenção nuclear, uma defesa no caso de a próxima rodada de sanções falhar.

Dois campos. A Casa Branca nega que esteja sendo posta em prática uma política de contenção. "Os EUA estão determinados a impedir que o Irã adquira a arma nuclear e ponto final", afirmou o vice-presidente Joe Biden. Mas para muitos, naquele início dos anos 60, uma China nuclear também era algo impensável. Mais recentemente, o presidente George Bush costumava reiterar que os EUA nunca "tolerariam" que a Coreia do Norte chegasse a ter a bomba. No entanto, nos últimos seis anos de sua presidência, tolerou. Depois, preparou o caminho para a atual estratégia de contenção com a interceptação de embarques que saíam da Coreia do Norte rumo a seus clientes de know-how nuclear.

O que é surpreendente no atual debate é que nenhuma das partes parece confiar em seus argumentos.

Os que defendem sanções reconhecem que três rodadas do Conselho de Segurança da ONU não conseguiram mudar o comportamento do Irã. Mesmo que se consiga a aprovação de novas medidas contra a Guarda Revolucionária, seus defensores admitem que é improvável que o Irã seja afetado a ponto de parar o enriquecimento de urânio. Os que dizem que talvez seja necessário um ataque militar se as sanções falharem têm suas próprias dúvidas. Eles admitem sua incapacidade de prever a reação do Irã - de ataques terroristas e cortes de fornecimento do petróleo a confrontos no Estreito de Ormuz.

O próprio governo americano parece incerto quanto ao momento em que o Irã abusará de sua tolerância.

Portanto, qual é o argumento que justifica a contenção? Basicamente, ele pressupõe que, se China e Rússia mudaram nas últimas décadas, o Irã também poderá mudar. Por outro lado, as armas nucleares podem constituir um enorme freio para uma nação, mesmo que lhe confiram enorme poderio. Na semana passada, Brzezinski argumentou que a bomba iraniana ou um ataque ao Irã seriam uma "calamidade". Ele afirmou que a via diplomática funcionará porque o Irã "pode ser perigoso, firme e ambíguo, mas não há nada em sua história que sugira que é suicida".

Mas, em seu ensaio publicado na revista Foreign Affairs, James Lindsay e Ray Takeyh reconhecem que o caso do Irã é diferente do que ocorria na Guerra Fria. Eles sugerem a Obama que determine explicitamente três zonas perigosas: "a deflagração de uma guerra convencional"; "a transferência de armas, material ou tecnologias nuclear; "o aumento do apoio aos terroristas". A pena, segundo eles, terá de incluir "a retaliação militar por todos os meios necessários", incluindo o uso de armas atômicas. É uma lista lógica.

Mas se pode contra-argumentar: Por que o Irã acreditaria nessa ameaça se os EUA, após afirmar que nunca permitiriam que o Irã adquirisse capacidade nuclear, agora permitem? Na realidade, o governo adotou totalmente a estratégia de contenção - embora insista que o aumento de seu poder no Golfo busque dissuadir um ataque convencional do Irã.

Se a ameaça do Irã chegar ao emprego da bomba, é possível que os EUA tenham de ampliar sua proteção nuclear também. O secretário da Defesa, Robert Gates, acenou cuidadosamente a esta opção na semana passada, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, ao procurar tranquilizar os líderes desses países que temem cada vez mais a perspectiva de uma bomba iraniana.

Não há dúvida de que a ameaça dos mísseis pode ser contida. Os estrategistas estão mais preocupados com a possibilidade de que o Irã passe secretamente uma arma ou material nuclear para grupos terroristas.

Outro argumento contra a estratégia de contenção é o de Brent Scowcroft, assessor para a segurança nacional dos presidentes Gerald Ford e George H. Bush. "A consequência última de se tentar conter o Irã não tem tanto a ver com o Irã em si", argumenta. "O maior risco é que isso provoque uma reação em cadeia" em todo o Golfo, a começar pela Turquia, Arábia Saudita e Egito. Eles duvidariam da capacidade de dissuasão dos EUA, afirmou, e o problema se estenderia ao Japão e à Coreia do Sul.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

COLUNISTA E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER

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