‘Pensei que eram bombinhas de São João’, diz professor brasileiro

José Lira, que jantava no Le Petit Cambodge quando ocorreram os ataques, descreve os momentos de horror

Rene Moreira, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2015 | 05h00

O professor de arquitetura da Universidade de São Paulo (USP) José Lira fez um relato emocionante sobre os momentos que viveu durante o ataque ao restaurante em que estava em Paris, junto com ex-alunos e amigos. Um deles era Gabriel Sepe, de 29 anos, que foi ferido por tiros disparados pelos terroristas.

“A cena é indescritível. Não sabia pra onde olhar, pessoas pelo chão, grupos de amigos consolando os seus feridos, pessoas chorando, algumas pessoas já mortas sozinhas, outras quase morrendo”, contou o professor, que jantava no Le Petit Cambodge quando houve o ataque. “Teve gente que até inventou que um arquiteto brasileiro morreu nos atentados…”, reclamou, sobre os comentários que teriam surgido no Brasil com relação ao seu nome.

Ele conta que está bem e, antes do ocorrido, passou “um fim de tarde adorável na companhia de dois ex-alunos da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP)”. Segundo Lira, por volta das 21h30, quando já terminavam de comer, começaram os estampidos.

“Estávamos numa mesa à calçada, o som da metralhadora muito próximo, vi faíscas do outro lado da calçada. Juro que pensei que eram bombinhas de São João, uma girândola talvez, que poderia fazer parte de alguma brincadeira cenográfica nesse bairro apinhado de artistas e gente animada.”

Ele conta que percebeu o que ocorria quando pratos e garrafas começaram a ser atingidos. “Lancei-me no fluxo das pessoas que corriam do restaurante para um supermercado ao lado”, explica. Foi lá que se deu conta de que faltavam cinco pessoas do seu grupo.

“Um de meus amigos sangrava, talvez de estilhaços que atingiram-lhe a testa. Dez minutos depois, chegaram os bombeiros e saímos, depois a policia, como de praxe truculenta e insensível.”

O professor lembra que, ao sair do supermercado, viu pessoas pelo chão, grupos de amigos consolando os feridos, pessoas chorando, algumas já mortas sozinhas e outras quase morrendo. “Procurávamos os nossos amigos. Vi uma delas ao chão apoiada por seu amigo francês, também muito ensanguentado”, se referindo a Camila Issa, de 29 anos, brasileira ferida nos ataques.

Segundo ele, a jovem pedia socorro até os bombeiros chegarem com o oxigênio e a manta. De acordo com Lira, depois disso, “outros dois amigos apareceram e nos levaram a um de meus ex-alunos, um jovem incrível, pessoa da cepa mais preciosa, que estava estirado no interior do restaurante”.

Ele se refere dessa vez a Gabriel Sepe, o segundo brasileiro ferido no restaurante. “Nossos dois amigos foram operados e estão se recuperando. Estamos todos juntos. Vamos voltar para o Brasil logo.”

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