Beatriz Bulla / Estadão
Prédio da siderúrgica Bethlehem Steel Corporation, que fechou em 2003, em Northampton, na Pensilvânia Beatriz Bulla / Estadão

Pensilvânia, cobiçada por democratas e republicanos

Estado, ao lado de Michigan, Ohio, Indiana, Wisconsin e partes de Illinois e Iowa, integrar o chamado Cinturão da Ferrugem; boom econômico foi durante o desenvolvimento das indústrias de aço e carvão

Beatriz Bulla / Enviada Especial, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2020 | 16h53

NORTHAMPTON, EUA  -  Sentado em uma cadeira na varanda de sua casa, em Northampton, no Estado da Pensilvânia, o aposentado Bill Smith responde de maneira direta sobre o que pensa do processo de impeachment do presidente dos EUA, aberto pelos democratas na Câmara dos Deputados, no ano passado. “Sou eleitor de Donald Trump, qual o problema?” O apoio dele ao presidente Donald Trump parece irrevogável e as acusações, “bobagens”. 

Ao lado de Smith, Val Wagner ajuda na defesa do presidente. “Trump não liga para dinheiro, ele já tem dinheiro. Ele é realmente honesto. O impeachment é uma besteira, uma piada. Parece que os democratas estão no ensino médio”, disse Val, que sempre votou em democratas até conhecer Trump.

Em 2016, dos pouco mais de 3 mil condados americanos, só 209 mudaram para republicanos após votar duas vezes em Barack Obama. Northampton é um deles. Essa troca foi crucial para que Trump chegasse à Casa Branca. Às 15 horas de uma quarta-feira, a loja de armas a cerca de 300 metros da residência de Val e Smith tinha mais movimento do que uma das poucas lanchonetes da principal rua da cidade, do outro lado da rua. 

Locais identificados com a classe operária têm média de renda familiar e taxas de educação universitária mais baixas do que a média do país e, após décadas de prosperidade industrial, esse tipo de emprego entrou em extinção - tanto que parte do Meio-Oeste americano, incluindo os Estados de Michigan, Pensilvânia, Ohio, Indiana, Wisconsin e partes de Illinois e Iowa ganhou o termo pejorativo de Cinturão da Ferrugem.

O boom econômico foi durante o desenvolvimento das indústrias de aço e carvão. Northampton chegou a abrigar uma siderúrgica, a Bethlehem Steel Corporation, que faliu em 2003. Hoje, os escombros da usina se tornaram um espaço de eventos e cassino.

A mudança de resultado eleitoral nas regiões chamadas nos EUA de “blue collar” (colarinho azul, em referência à predominância de empregos industriais) foi o que deu a Trump a vitória em 2016, ao conquistar os delegados desses Estados. A promessa de Trump de mais empregos, revisão de acordos comerciais que supostamente retiram postos de trabalho de americanos e de “tornar a América grande de novo” energizou a classe branca trabalhadora do Cinturão da Ferrugem, que vive em casas de madeira pintadas de branco, típica construção americana.

Desde 2016, o Cinturão da Ferrugem passou a ser um termômetro do apoio político do republicano e um teste de sua resistência. O Estadão visitou dois dos três condados da Pensilvânia que votaram em Trump após duas votações em Obama, durante o processo de impeachment de Trump, que foi encerrado em fevereiro pelo Senado.  

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Biden tem cerca de 5 pontos de vantagem sobre Trump na Pensilvânia, menos do que a diferença nacional, na casa dos 9 pontos. Junto da Flórida, o Estado da Pensilvânia é considerado o determinante da eleição deste ano. 

O Condado de Luzerne não votava majoritariamente em um candidato presidencial republicano desde 1988. Agora, a população parece repetir os mesmos lemas defendidos por Trump. Os eleitores criticam a imprensa, atacam a imigração ilegal, dizem que a China rouba os americanos, que a economia melhorou e o processo de impeachment que Trump sofreu foi uma “perseguição” democrata. 

“Desde o dia em que ele foi eleito, os democratas tentam destituí-lo. Nada foi provado”, afirma Chuck Dekmar, dono de uma lanchonete em Luzerne. Registrado como republicano, ele diz votar “com a consciência” e nem sempre no mesmo partido.

Um levantamento do Wall Street Journal e da ONG Economic Innovation Group mostra que o crescimento econômico e os novos empregos nestas regiões ficaram atrás da média nacional nos anos em que Trump esteve na presidência, mas a aprovação do republicano segue próxima de 50%.

Os dados foram coletados em 77 condados identificados com a classe operária. O emprego industrial caiu na Pensilvânia - cerca de 8 mil postos foram perdidos, de agosto de 2018 a agosto de 2019, de acordo com o Departamento do Trabalho. Em meio às guerras comerciais de Trump e à desaceleração da demanda, as indústrias seguram investimentos.

Mas, para os eleitores de Trump, a economia só não está melhor pela falta de apoio dos democratas. “Ele não é um político. Ele se conecta conosco. Não é uma região próspera, mas ele nos deu esperança”, afirma Dekmar. Há nove anos à frente do Chuck Main St Dinne”, que emprega 12 pessoas, Chuck trabalhou na indústria até decidir abrir seu negócio. Gerente de uma cervejaria do outro lado da rua, Lisa Blockus repete como um mantra: “Ele não fez nada errado, democratas não gostam dele porque ele não é um político, ele diz o que as pessoas comuns querem ouvir”, afirma a ex-eleitora de Obama.

Rosemary Hagemenes, enfermeira que mora em Northampton, fez o caminho contrário: já votou para republicanos, mas não concorda com as plataformas políticas de Trump e se define agora uma democrata. Os democratas precisam que mulheres com diploma universitário, como ela, votem em novembro em maior número do que fizeram em 2016, assim como eleitores negros e latinos. 

As pesquisas eleitorais de junho acenderam um sinal de sinal de alerta para a campanha de Trump: não apenas os eleitores tradicionalmente democratas parecem mais energizados a votar por Biden do que estiveram por Hillary, como também o democrata mostra entrada com independentes e com parcela do eleitorado que foi crucial para os republicanos no cinturão da ferrugem.

Os dados apontam que Biden tem boa entrada com independentes e homens brancos, grupos que costumavam apoiar Trump. Mas o presidente ainda consegue ganhar entre brancos sem diploma universitário, o que o favorece nos Estados do Meio-Oeste.

Chuck Dekmar é um dos que não abandona Trump. Ele reabriu seu restaurante no final de julho, depois de quatro meses de portas fechadas e semanas de apreensão sobre como seria a retomada. "Tenho medo do vírus voltar", afirma.  "Mudei meu negócio, agora atendemos só para café da manhã, porque é mais simples e diminuí número de funcionários", afirma. Parte dos funcionários dispensados, segundo ele, estão desempregados e alguns mesmo assim ainda não se sentem seguros para voltar à linha de frente.

No período de isolamento, Dekmar teve um câncer de próstata diagnosticado, mas precisou atrasar o início da quimioterapia porque os hospitais locais estavam ocupados com pacientes internados com covid-19. 

Mas a crise econômica e de saúde não mudaram a avaliação política do proprietário do restaurante, que desconfia das informações a respeito da doença. "É uma coisa inédita. Todo mundo está tentando fazer a coisa certa. Deixaram as pessoas saudáveis em quarentena e agora é claro que todos querem sair de casa novamente e os números vão subir. Mas não é tão ruim a situação quanto diz a mídia, a mídia aumenta muito as coisas", diz o morador de Luzerne.

Os protestos antirracismo registrados em maio e junho são uma motivação para Dekmar votar em Trump. "Há um esforço orquestrado contra ele. Ele tem meu apoio, não quero um país socialista. Eu sou a favor de um tratamento justo para todos, não sou racista, mas o Black Lives Matter é só uma organização coletora de dinheiro", diz.

 Biden tenta fazer acenos ao eleitorado da Pensilvânia, Estado onde cresceu e no qual escolheu lançar a candidatura à presidência no ano passado. O esforço da campanha democrata, no entanto, encontra resistência entre o típico eleitorado trumpista do meio-oeste que viu no atual presidente a figura do anti-establishment capaz de lutar por uma região que se sentiu abandonada.  

 

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Beatriz Bulla, Enviada Especial, Northampton, EUA

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Ao lado de Smith, Val Wagner ajuda na defesa do presidente. “Ele não liga para dinheiro, ele já tem dinheiro. Ele é realmente honesto. O impeachment é uma besteira, uma piada. Parece que os democratas estão no ensino médio”, disse Val, que sempre votou em democratas até conhecer Trump.

Em 2016, dos pouco mais de 3 mil condados americanos, só 209 mudaram de democratas para republicanos. Northampton é um deles. Essa troca foi crucial para que Trump chegasse à Casa Branca

Locais identificados com a classe operária têm média de renda familiar e taxas de educação universitária mais baixas do que a média do país e, após décadas de prosperidade industrial, esse tipo de emprego entrou em extinção - tanto que parte do Meio-Oeste americano, incluindo os Estados de Michigan, Pensilvânia, Ohio, Indiana, Wisconsin e partes de Illinois e Iowa ganhou o termo pejorativo de “Cinturão da Ferrugem”.

O boom econômico foi durante o desenvolvimento das indústrias de aço e carvão. Northampton chegou a abrigar uma siderúrgica, a Bethlehem Steel Corporation, que faliu em 2003. Hoje, os escombros da usina se tornaram um espaço de eventos e cassino.

O Cinturão da Ferrugem é um termômetro do apoio de Trump e um teste de sua resistência. O Estado visitou dois dos três condados da Pensilvânia que votaram no republicano após duas vitórias seguidas de Barack Obama, em 2008 e 2012. Nenhum entrevistado que tenha se apresentado como eleitor do presidente acredita que o impeachment será levado adiante.

O condado de Luzerne não votava majoritariamente em um candidato presidencial republicano desde 1988. Agora, a população parece repetir os mesmos lemas defendidos por Trump. Os eleitores criticam a imprensa, atacam a imigração ilegal, dizem que a China rouba os americanos, que a economia melhorou e o impeachment é uma “perseguição” democrata.

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“Desde o dia em que ele foi eleito, os democratas tentam destitui-lo. Nada foi provado”, afirma Chuck Dekmar, dono de uma lanchonete em Luzerne. Registrado como republicano, ele diz votar “com a consciência”, mas nem sempre no mesmo partido.

Um levantamento do Wall Street Journal e da ONG Economic Innovation Group mostra que o crescimento econômico e os novos empregos nestas regiões ficaram atrás da média nacional nos anos em que Trump esteve na presidência, mas a aprovação do republicano segue próxima de 50%. Os dados foram coletados em 77 condados identificados com a classe operária.

O emprego industrial caiu na Pensilvânia - cerca de 8 mil postos foram perdidos, de agosto de 2018 a agosto de 2019, de acordo com o Departamento do Trabalho. Em meio às guerras comerciais de Trump e à desaceleração da demanda, as indústrias seguram investimentos.

Mas, para os eleitores de Trump, a economia vai bem e só não está melhor pela falta de apoio dos democratas. “O impeachment não vai chegar a lugar algum. Ele divulgou a transcrição da conversa, não há nada errado, é tudo bobagem”, disse Mark Yefko, consultor de vendas de Wilkes-Barre.

Gerente de uma cervejaria do outro lado da rua, Lisa Blockus repete o mantra. “Ele não fez nada de errado. Eles não gostam dele porque ele não é político e diz o que as pessoas comuns querem ouvir”, afirma Lisa, ex-eleitora de Obama.

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