Pentágono hesita em entregar armas a rebeldes anti-Taleban

Numa Ásia Central onde as lealdades mudam freqüentemente de lado, os Estados Unidos desconfiam até mesmo de aliados. Soldados de forças especiais dos EUA buscando Osama bin Laden têm de ficar atentos a qualquer pista que recebem, pois ela pode vir a ser uma armadilha, montada por desertores que ainda simpatizam com o Taleban. O Pentágono quer ter a garantia de que qualquer arma entregue a rebeldes seja usada contra o Taleban e os terroristas, e não seja vendida. A CIA desejava sorte ao líder oposicionista afegão Abdul Haq, mas não acreditava o suficiente em suas chances de sucesso para fornecer armas e homens a ele. Mesmo os serviços de inteligência do Paquistão são suspeitos. Alguns de seus membros treinaram o Taleban e, apesar de uma recente limpeza, alguns no governo paquistanês ainda apoiariam a milícia islâmica. "Os militares das forças especiais devem estar morrendo de medo de ter de se apoiar em pessoas em campo para conseguir pistas sobre o paradeiro de Bin Laden", disse Daniel Goure, um especialista em inteligência e defesa no Lexington Institute de Washington. "Você pode não ter idéia do passado da pessoa, a quem ele é verdadeiramente leal. Esta talvez seja uma das razões pelas quais a operação não esteja se desenrolando com rapidez". A desconfiança surge do desconcertante número de laços étnicos na região, que torna difícil pessoas de fora discernirem quem é leal a quem, afirmou Goure. Além disso, é comum líderes tribais e rebeldes trocarem de lado - muitos senhores da guerra na Aliança do Norte fizeram isso repetidamente na última década, algumas vezes em troca de suborno. Desertores são rapidamente enviados para lutar nas linhas de frente, onde eles sempre podem trocar de lado de novo. Também os dois principais aliados dos EUA na campanha no Afeganistão - os rebeldes da Aliança do Norte e o vizinho Paquistão - se odeiam. Alguns no governo do Paquistão acusam líderes da Aliança do Norte de ainda manterem estreitos laços com Bin Laden ou outros extremistas islâmicos - laços criados em meados dos anos 80 na guerra contra os soviéticos. Um dia, os rebeldes da Aliança do Norte "vão virar suas armas" contra a coalizão liderada pelos EUA, previu recentemente o ex-chefe do serviço de inteligência do Paquistão. Combatentes da Aliança do Norte, por seu lado, acusam o Paquistão de continuar respaldando o Taleban, apesar do apoio do governo paquistanês à campanha norte-americana. O Paquistão colaborou na ascensão ao poder do Taleban e apoiou o regime até os atentados terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos. "Esse pessoal é mestre em manipular estrangeiros", disse Fred Starr, um especialista em Ásia Central na Universidade Johns Hopkins. "Eles vão nos jogar uns contra os outros para conseguirem o que querem". Alguns na região também desconfiam dos Estados Unidos. Haq, o líder tribal executado pelo Taleban, não estava conseguindo o pleno apoio dos EUA para lançar um levante anti-Taleban porque oficiais de inteligência não acreditavam muito em suas chances de sucesso. Mas sua família ficou amargurada depois de sua morte porque os Estados Unidos não ofereceram mais ajuda. E o Paquistão muitas vezes chama os Estados Unidos de amigo de ocasião, por buscarem laços estreitos somente quando é do interesse deles. Autoridades dos EUA reconhecem que seus objetivos, os objetivos do Paquistão e os objetivos da Aliança do Norte se sobrepõem, mas não são exatamente os mesmos. "Estamos nos apegando ao nosso plano de jogo, à nossa estratégia", afirmou recentemente o porta-voz do Pentágono almirante John Stufflebeem. "Quando ela cruza em algum lugar com a que a Aliança do Norte possa ter, isso é bom. Mas não vamos necessariamente adaptar nosso plano de jogo ao deles". Os Estados Unidos têm relutado em entregar munição aos rebeldes até que estejam certos de que eles "não vão vendê-la" disse recentemente o secretário da Defesa Donald Rumsfeld. Igualmente, oficiais dos EUA afirmam que o Paquistão está oferecendo uma preciosa ajuda, mesmo reconhecendo que armas e combustíveis estão sendo contrabandeados através da fronteira para o Taleban. Tanto o secretário de Estado, Colin Powell, como a assessora de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, dizem que os líderes paquistaneses estão tentando acabar com o contrabando. O Paquistão tem oferecido valiosa ajuda de inteligência na guerra dos EUA contra o terrorismo, como a informação de que Bin Laden havia se deslocado rapidamente após os atentados de 11 de setembro. Ainda assim, autoridades norte-americanas também dizem que a inteligência de algumas fontes estrangeiras pode ser suspeita - destinada a favorecer um objetivo político ao invés de colaborar na busca dos terroristas. Os serviços de inteligência do Paquistão já ofereceram essa informação seletiva no passado, disse Vincent Cannistraro, ex-chefe de contraterrorismo da CIA.

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