Pentágono já questiona aliança, afirma revista

Pentágono já questiona aliança, afirma revista

Cúpula militar avaliaria que política de Israel em relação aos palestinos mina influência e interesse dos EUA

, O Estadao de S.Paulo

24 de março de 2010 | 00h00

Se a cada mordida em Israel diplomatas do Departamento de Estado correm para assoprar ? garantindo, como fez a secretária Hillary Clinton anteontem, que a aliança especial com israelenses "é eterna" ?, generais do Pentágono parecem já ter começado a pressionar para que alguns termos dessa parceria sejam revistos com urgência.

Segundo noticiou a revista Foreign Policy, em janeiro foi parar nas mãos do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas um briefing sobre a questão israelense com 33 slides e um alerta: o apoio incondicional está, mais do que nunca, corroendo a influência de Washington sobre o Oriente Médio. Quem coordenou a apresentação foi o general de quatro-estrelas David Petraeus, que se tornou uma celebridade ao arquitetar, em 2007, a estratégia que enfraqueceu a Al-Qaeda no Iraque.

"(Por causa da política israelense em relação aos palestinos) os EUA não estão apenas sendo vistos na região como fracos, mas sua posição militar está erodindo", teria afirmado Petraeus, que tirou suas conclusões após um longo tour por países árabes. "Por onde ele passou, a mensagem foi decepcionante", completou um funcionário do Pentágono à revista.

"Essa pressão é algo único, extraordinário", disse ao Estado William Hartung, especialista em questões de Defesa do centro New America Foundation. Ele afirma que generais americanos são temerosos em abordar temas políticos.

Mensagem. O briefing teria chamado atenção da Casa Branca e motivado o novo esforço americano para lançar "negociações indiretas" entre palestinos e israelenses. O chefe do Estado-maior, almirante Michael Mullen, o enviado à região, George Mitchell, e o vice-presidente, Joe Biden, foram incumbidos de pressionar militares e políticos de Israel.

"O que você está fazendo aqui compromete a segurança de nossas tropas no Iraque, Afeganistão e Paquistão. É uma ameaça a nós e à região", teria afirmado Biden ao premiê israelense, Binyamin "Bibi" Netanyahu, em Jerusalém.

Na mesma viagem, o vice-presidente foi surpreendido com o anúncio israelense da construção de 1.600 casas em território palestino ? evento que iniciou o mal-estar entre os aliados.

Antes do encontro entre Biden e Bibi, porém, Mullen reuniu-se com seu homólogo israelense, general Gabi Ashkenazi. Especulava-se que o assunto que prevaleceria entre os militares seria o Irã. Mas o almirante americano teria se concentrado na questão palestina e exortado seu colega a pensar em suas "implicações regionais".

Analistas agora questionam até que ponto essa visão do Pentágono será capaz de moldar a política da Casa Branca para Israel. "Embora seja algo muito relevante no curto prazo, talvez não seja o suficiente", afirma Hartung.

Mark Perry, blogueiro da Foreign Policy que revelou o briefing de Petraeus, vai mais longe: "Nem o lobby pró-Israel é mais poderoso que o militar." / R.S.

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