Pentágono quer voltar a comprar motores russos

Defesa pressiona Congresso a atenuar proibição, alegando que são necessários para lançar satélites

NYT

04 de junho de 2015 | 08h24

WASHINGTON - Depois que a Rússia anexou a Crimeia, no ano passado, o Congresso americano aprovou leis que obrigaram o Pentágono a deixar de comprar os motores de foguete russos que têm sido usados desde 2000 para lançar satélites militares e de espionagem americanos ao espaço.

Agora, esse simples ato de punição está se mostrando difícil de ser mantido. Cinco meses depois de a proibição virar lei, o Pentágono está pressionando o Congresso para abrandá-la. Ele diz que motores russos adicionais serão necessários, durante mais alguns anos, para assegurar o acesso ao espaço da tecnologia de defesa e inteligência mais sensível dos EUA.

O recuo irritou os críticos mais ferozes da Rússia no Congresso, entre eles o senador John McCain, presidente da Comissão de Serviços Armados. Ele disse que a NPO Energomash, a empresa russa que fabrica os foguetes e tem laços com o presidente Vladimir Putin, poderá ganhar US$ 300 milhões com as vendas.

A proibição só se aplica a missões de segurança nacional, mas o pedido do Pentágono também frustrou os que pressionavam pelo fim da dependência americana da Rússia para voos espaciais comerciais e da Nasa, num momento de maior tensão entre os dois países desde a Guerra Fria.

A posição do Pentágono tem o apoio poderoso da inteligência dos EUA e de dois dos mais influentes fornecedores de defesa, a Boeing e a Lockheed Martin. Numa carta a parlamentares, o secretário de Defesa, Ashton Carter, e o diretor de inteligência nacional, James Clapper Jr., disseram que o Pentágono enfrentará “desafios importantes” para garantir o acesso ao espaço para as missões militares e de inteligência com a proibição sobre os motores russos. 

O debate é um exemplo das mudanças nas relações entre EUA e Rússia, encerrando anos de esforços experimentais e por vezes tensos de cooperação. A dependência de foguetes russos para missões americanas - as que colocam satélites de comunicações e de vigilância altamente secretos em órbita - é remanescente do “dividendo de paz” que se seguiu à Guerra Fria. Agora, ela cedeu lugar à provocação política e militar. 

A Energomash, companhia russa que fabrica os motores de foguete, surgiu do velho programa espacial soviético e formou uma parceria com a Lockheed Martin, no início dos anos 90, para desenvolver novas tecnologias. Era uma época em que os EUA buscavam promover a cooperação no espaço, em parte para desencorajar a proliferação da tecnologia de foguetes a países que as autoridades americanas viam com desconfiança.

Com a Lockheed Martin e a Pratt & Whitney, a Energomash adaptou o motor de foguete RD-180 para o uso na série de foguetes Atlas, agora produzida pela aliança Lockheed Martin-Boeing. O acordo provocou objeções em razão da propriedade estatal majoritária da Energomash e, segundo um artigo publicado pela Reuters, em 2014, uma participação minoritária ligada a um amigo íntimo de Putin, o bilionário Yuri Kovalchuk. A invasão da Crimeia e o apoio da Rússia à insurgência no leste da Ucrânia aumentaram o apoio no Congresso ao fim do uso do RD-180 em missões militares e de inteligência.

Tudo o que sabemos sobre:
EUARússia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.