Anna Moneymaker/The New York Times
Anna Moneymaker/The New York Times

Pentágono teme uso de tropas para conter protestos

Funcionários do Departamento da Defesa afirmaram que generais de alta patente poderão se demitir se Trump ordenar que militares da ativa sejam enviados às ruas a fim de conter os protestos durante as eleições

Jennifer Steinhauer e Helene Cooper / The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2020 | 03h30

WASHINGTON – Altas patentes do Pentágono têm muito com que se preocupar – Afeganistão, Rússia, Iraque, Síria, Irã, China, Somália, Península Coreana. Mas a maior de todas as suas preocupações é que o seu comandante-chefe possa ordenar que as tropas americanas atuem no eventual caos nas próximas eleições.

O presidente Donald Trump não aliviou absolutamente o clima entre os oficiais, quando mais uma vez se recusou a prometer uma transferência pacífica do poder, independentemente de quem ganhar a eleição, e na quinta-feira, ele insistiu que não tem certeza de que as eleições serão “honestas”.

Esta restrição, juntamente com o seu desejo expresso em junho de invocar o Insurrection Act, de 1807, que prevê o envio de tropas do serviço ativo para as ruas dos Estados Unidos para conter os protestos por causa da morte de George Floyd, espalharam uma profunda ansiedade entre os militares de patente mais alta e os líderes do Departamento da Defesa, que insistem que farão tudo o que estiver ao seu alcance para manter as forças armadas fora do processo eleitoral.

“Acredito profundamente no princípio de que o Exército americano deve ser apolítico”, afirmou o general Mark A. Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, em resposta por escrito às perguntas enviadas por parlamentares da Câmara, no mês passado.

“No caso de uma disputa a respeito de alguns aspectos das eleições, por lei, caberá aos tribunais americanos e ao Congresso americano solucionar qualquer questão, e não aos militares americanos. Não prevejo nenhum papel para as forças armadas dos EUA neste processo”.

Mas isso não acabou com o debate cada vez mais intenso entre os militares a respeito do seu papel no caso de uma eleição controvertida provocar agitação civil.

No dia 11 de agosto, John Nagl e Paul Yingling, oficiais do Exército da reserva e veteranos da  Guerra do Iraque, divulgaram uma carta aberta ao general Milley pelo site Defense One. “Dentro de poucos meses, talvez os senhores tenham de escolher entre defender um presidente que não respeita a lei ou trair o seu juramento constitucional”, escreveram.“Se Donald Trump se recusar a deixar a presidência quando o seu mandato constitucional expirar, os militares dos Estados Unidos deverão retirá-lo do cargo pela força, e caberá aos senhores dar esta ordem."

Oficiais do Pentágono declararam rapidamente que isto seria absurdo. Em hipótese alguma, disseram, o chefe do Estado-Maior Conjunto enviará  SEALs ou fuzileiros navais para retirar Trump da Casa Branca. Se necessário, declararam oficiais do Departamento da Defesa, essa tarefa caberá aos marshals ou ao Serviço Secreto. Por lei, afirmaram, os militares prestam o juramento à Constituição, e não ao presidente, e este juramento significa que o comandante-chefe das forças armadas é aquele que prestar juramento às 12:01 no Dia da Posse.

Entretanto, oficiais de alta patente do Pentágono, que pediram para não ser identificados, admitiram ter conversado entre si a respeito do que fazer se Trump, que ainda será presidente, do Dia da Eleição até o Dia da Posse, invocar o Insurrection Act, e tentar mandar as tropas para as ruas, como tem ameaçado reiteradas vezes durante os protestos contra a brutalidade da polícia e o racismo sistêmico. O general Milley e o secretário da Defesa, Mark T. Esper, se opuseram na época a essa possibilidade, e Trump voltou atrás.

Funcionários do Departamento da Defesa discutiram em particular a possibilidade de Trump tentar usar a agitação civil na época das eleições para fazer algum tipo de interferência. Vários oficiais do Pentágono afirmaram que essa ação poderá  levar à renúncia de muitos generais do mais alto escalão de Trump, começando pelo topo, com o general Milley.

O chefe de gabinete da Força Aérea, general Charles Q. Brown, segundo comentaram os oficiais, provavelmente se recusaria a bater continência e a cumprir tais ordens. Nos dias após o assassinato de Floyd, ainda na custódia da polícia, o general Brown divulgou um vídeo extraordinário em que ele falava em termos muito duros de sua experiência como homem negro nos Estados Unidos, do tratamento desigual nas forças armadas e dos protestos que se alastraram por todo o país.

“Penso nos protestos no meu país, em ti, doce terra da liberdade, na igualdade expressa na nossa declaração de Independência e na Constituição que na minha vida adulta jurei apoiar e defender”, afirmou o general Brown. “Estou pensando em uma história de questões raciais, e nas minhas experiências que nem sempre falaram em liberdade e igualdade.”

Protestos ocasionais e confrontos violentos, como o de Portland no mês passado, que resultou em morte, e outro em Louisville, esta semana, após um grande júri não quis declarar culpados os policiais pela morte de Breonna Taylor, continuaram abalando o país e aumentam ainda mais as preocupações no Pentágono.

“O maior medo é que Portland seja apenas um ensaio e que o espetáculo em si ocorra aqui”, disse Derek Chollet, secretário assistente da Defesa no mandato do presidente Barack Obama. “A ideia é que vocês terão bastante combustível enquanto Trump não está fazendo nada para impedir que pegue fogo."

No Pentágono, cujos líderes são muito conhecidos por fazerem planos, funcionários do Departamento da Defesa afirmaram que não houve nenhuma preparação para o envio de tropas do serviço ativo para as ruas do país para acabar com todo tipo de agitação civil. “O planejamento que deveriam estar fazendo é de como evitar interferir”, disse Devin Burghart, presidente do Institute for Research and Education on Human Rights e especialista em movimentos nacionalistas brancos.

O confronto em Lafayette Square, nas proximidades da Casa Branca, em junho, deixou muito claro para o Departamento da Defesa que os militares chegaram muito perto do precipício, com o risco de serem envolvidos em uma crise política interna. Os helicópteros militares e membros armados da Guarda Nacional patrulharam as ruas ao lado de policiais federais da força de choque para que o presidente, ao lado de Esper e do general Milley, pudesse caminhar pela praça segurando uma bíblia até a frente de uma igreja provocando a ira entre parlamentares e integrantes atuais e antigos das forças armadas.

“Fiquei enojado ontem em ver o pessoal da segurança – inclusive membros da Guarda Nacional – abrirem caminho pela força e violência na Praça Lafayette para a visita do presidente à Igreja de St. John”, escreveu o almirante Mike Mullen, presidente do Estado-Maior Conjunto no governo do presidente George W. Bush e de Obama, na revista The Atlantic. “Essa não é a hora de tais encenações”.

Ambos os militares, mas principalmente o general Milley, foram tão criticados por colegas da reserva e líderes do Pentágono por participarem da caminhada que nos dias seguintes se dedicaram a uma séria avaliação e controle dos danos.  

Esper participou de uma coletiva extraordinária à imprensa em que rompeu com o presidente e disse que as tropas do serviço ativo não deveriam ser enviadas para controlar protestos. Suas palavras enraiveceram Trump a tal ponto que o presidente teve de ser convencido a não demiti-lo, afirmaram assessores na ocasião.

O general Milley pediu desculpas publicamente pela caminhada. “Eu não deveria estar lá”, declarou em um discurso em vídeo na National Defense University. O seu pedido de desculpas também enraiveceu Trump.

Milley e Esper continuam nos seus cargos por enquanto. Na quinta-feira, o general reiterou sua posição quanto a deixar os militares fora das eleições de 2020, e pediu aos militares americanos em todo o mundo, durante uma sessão de perguntas e respostas por vídeo, para “manterem a Constituição perto do coração”.

Foram palavras sutis, mas os que assistiram ao vídeo compreenderam o que ele quis dizer. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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