Amr Alfiky/The New York Times
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Pentágono tenta detectar extremistas de direita em seus quadros

Instituição fez pente-fino no contingente destacado para posse de Biden; militares americanos historicamente minimizam o supremacismo branco e o ativismo de direita, mas o ataque ao Capitólio gerou uma nova urgência para lidar com esses grupos

Eric Schmitt, Jennifer Steinhauer e Helene Cooper / The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2021 | 15h09

WASHINGTON — O Pentágono está intensificando os esforços para identificar e combater supremacistas brancos e integrantes de outros grupos de extrema direita em seus quadros. A investida ocorre no mesmo momento em que investigadores procuram determinar quantos militares e veteranos se juntaram ao violento ataque ao Capitólio em 6 de janeiro.

Desde que uma multidão pró-Trump invadiu o Capitólio, a liderança dos 2,1 milhões de soldados da ativa e da reserva tem lidado com o medo de que ex-militares ou membros atuais das Forças Armadas sejam identificados no grupo.

Ainda nos estágios iniciais, a investigação do FBI sobre a invasão do Capitólio identificou pelo menos seis suspeitos com ligações militares entre as mais de 100 pessoas que foram levadas sob custódia federal e entre as pessoas que ainda estão sendo investigadas. Os suspeitos incluem um tenente-coronel aposentado da Força Aérea do Texas, um oficial do Exército da Carolina do Norte e um reservista do Exército de Nova Jersey. Outra pessoa ligada ao serviço militar foi baleada no ataque e morreu.

As autoridades federais estão passando um pente-fino nos antecedentes de milhares de soldados da Guarda Nacional que estão chegando para garantir a segurança na posse. Dos 21.500 membros da Guarda que chegaram a Washington na segunda-feira, qualquer um que estiver perto do presidente eleito Joe Biden e da vice-presidente eleita Kamala Harris passará por verificações adicionais — um procedimento padrão para conter ameaças internas que também foi feito antes da posse de Donald Trump em 2017.

O tema representa uma nova urgência para o Pentágono, que tem um histórico de minimizar a ascensão do nacionalismo branco e do ativismo de direita. Por mais de uma semana, o general Mark A. Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto, ouviu analistas, leu relatórios e assistiu a vídeos do ataque. “Havia alguma indicação de que um número desconhecido de veteranos se associou à insurreição”, afirmou ele.

Milley também pontuou que viu manifestantes carregando bandeiras militares. No comício de Trump — antes da invasão — e mais tarde durante o ataque ao Capitólio, os invasores foram vistos com bandeiras do Corpo de Fuzileiros Navais, emblemas do Exército e insígnias das Forças Especiais.

Funcionários do Departamento de Defesa dizem que estão tentando aumentar o monitoramento de postagens nas redes sociais de membros do serviço, da mesma forma que empresas fazem com seus funcionários. Ashli Babbitt, que foi baleada e morta ao tentar arrombar uma porta no Capitólio, era uma veterana da Força Aérea com participação intensa nas mídias sociais.

Entre os suspeitos que têm laços militares estão Timothy Hale-Cusanelli, que agentes federais dizem ser um neonazista e supremacista branco. Ele é reservista do Exército e trabalha — com uma autorização secreta — em uma estação de armas da Marinha.

A capitã Emily Rainey, oficial do Exército que disse à agência Associated Press que transportou 100 pessoas a Washington para o comício de Trump, está sendo investigada pelo Exército por ter conexão com a invasão. Rainey havia renunciado ao cargo no ano passado, mas ainda não havia saído até o fim do ano passado.

Na semana passada, o inspetor-geral do Departamento de Defesa anunciou uma investigação sobre a eficácia das políticas e procedimentos do Pentágono que proibem os militares de defender ou participar de grupos supremacistas ou extremistas.

O ajuste de contas no Pentágono ocorre no momento em que o general aposentado Lloyd J. Austin III está prestes a se tornar o primeiro secretário de Defesa negro do país. Em sua carreira de 41 anos no Exército antes de se aposentar como general em 2016, Austin testemunhou em primeira mão as possibilidades e as limitações de como os militares lidam com a questão racial. 

Como oficial do Exército, ele contou como teve que confrontar soldados com insígnias nazistas em Fort Bragg, na Carolina do Norte, e de incontáveis reuniões em que era a única pessoa negra na sala. Agora, se for confirmado como secretário de Defesa, terá que decidir se enfrentará a infiltração de extrema direita que se intensificou durante os quatro anos sob Trump.

No ano passado, o FBI notificou o Departamento de Defesa de investigações criminais envolvendo 143 pessoas, entre atuais e ex-militares. Destes, 68 estavam relacionados a casos de extremismo interno. A “grande maioria” envolveu militares aposentados, muitos com registros de dispensa ruins, disse um funcionário do Pentágono.

Boa parte dos casos de extremismo interno envolveu motivações antigoverno ou antiautoridade, incluindo ataques a instalações e autoridades governamentais. Um quarto dos casos estava associado ao nacionalismo branco e um pequeno número estava relacionado a motivações antifascistas ou antiaborto.

O secretário de Defesa interino, Christopher C. Miller, instruiu funcionários do Pentágono no mês passado a endurecer as políticas e regulamentos que proíbem atividades extremistas entre as tropas, além de atualizar o Código de Justiça Militar para tratar especificamente de ameaças extremistas.

“Nós, do Departamento de Defesa, estamos fazendo tudo que podemos para eliminar o extremismo”, disse Garry Reid, diretor de Inteligência de Defesa do Pentágono, na semana passada. Reid, no entanto, não conseguiu descrever os detalhes dessas ações e se recusou a falar de qualquer aspecto da participação dos membros da ativa na invasão do Capitólio.

Os militares dos EUA, ao contrário dos departamentos de polícia e de outras forças de segurança, têm autoridade para usar crenças extremistas para desqualificar aqueles que desejam ingressar no serviço. Mas, segundo seus críticos, eles falharam em aplicar essa autoridade.

“Os militares têm habilidades únicas para definir limites de conduta que outras partes do governo não têm”, disse Katrina Mulligan, do centro de estudos Center for American Progress. “Mas eles foram aplicados de forma desigual.”

Oficiais militares e especialistas independentes dizem que Austin enfrentará um desafio assustador. Os oficiais do Pentágono admitem que, apesar das triagens em vigor, os grupos de supremacia branca e outros de extrema direita recrutam ativamente membros do serviço militar ou fazem com que seus próprios membros tentem ingressar no Exército para obter habilidades e conhecimentos.

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Todo o pessoal militar, incluindo o da Guarda Nacional, passa por extensas investigações de antecedentes e exames físicos, incluindo avaliações de tatuagens. As tropas são monitoradas continuamente em busca de indicações de que estão envolvidas em atividades extremistas e recebem treinamento para identificar outras pessoas ao seu redor que possam ser "ameaças internas".

Os críticos, no entanto, apontam que a liderança militar muitas vezes falhou em responsabilizar quem burlou as regras.

“Os regulamentos atuais têm penalidades que são em grande parte deixadas para os comandantes, geralmente no nível da unidade”, disse Heidi Beirich, co-fundadora do Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo, em uma audiência na Câmara em fevereiro. “Aparentemente não há nenhum processo para rastrear pessoas expulsas por vínculos com grupos de supremacia branca.”

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