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Cidade síria presencia passo de reconciliação entre partidários de Assad e jihadistas

Em Koukab, na província de Hama, 15 terroristas entregaram voluntariamente suas armas e renunciaram à luta para derrubar o regime do presidente sírio

O Estado de S. Paulo

09 Maio 2016 | 12h36

HAMA - Koukab é uma pequena cidade da província de Hama, na Síria, que foi cenário de um tímido passo de reconciliação após cinco anos de guerra entre os que apoiam o regime de Bashar Assad, a oposição moderada e os jihadistas.

Em uma tenda montada para a ocasião, 15 terroristas entregaram voluntariamente suas armas - quase todas fuzis AK-47 de fabricação russa - e renunciaram à luta para derrubar o regime do presidente sírio.

A cerimônia, cuidadosamente encenada pelos exércitos sírio e russo, contou com a presença de influentes membros dos clãs locais, incluindo anciões, que não mostraram repulsa contra os jihadistas arrependidos, mas de aprovação por sua coragem.

Os terroristas, que estavam encapuzados para preservar sua identidade e pertenciam a um grupo ligado à Frente Al-Nusra, fizeram fila para entregar seus fuzis e assinar um documento oficial.

Em seguida, um representante do Exército sírio recolheu as armas. Com estes, já são mais de sete mil os guerrilheiros que se somaram à trégua e abandonaram definitivamente a luta armada desde a entrada em vigor da trégua, em 27 de fevereiro.

De fato, como comentaram os moradores de Koukab, os jihadistas estão a apenas oito km de distância.

O Centro de Reconciliação russo na província litorânea de Latakia informou que Koukab é uma das quase 100 localidades sírias que decidiram apoiar o frágil cessar-fogo nos últimos dois meses.

Antes da cerimônia de deposição das armas, o comando militar russo levou ao local mais de 100 jornalistas de diversos países para assistir tanto ao ato como à entrega de ajuda humanitária à população local.

Os ônibus que levavam os repórteres, que usavam capacetes e coletes à prova de balas, foram recebidos por cerca de 300 pessoas de peito descoberto.

O evento, acompanhado de tambores, foi ensurdecedor, e incluiu bandeiras sírias e inumeráveis cartazes de Assad, a maioria levados por crianças que não paravam de gritar o nome do presidente.

As crianças foram os autênticos protagonistas da manifestação pró-governo, embora seu aspecto destoasse muito de ser uma massa complacente. Muitos deles estavam mal vestidos e pareciam pertencer às classes mais desfavorecidas do campo sírio, mas não mostravam nenhuma vergonha em ser fotografados pelos convidados estrangeiros.

Seus pais os instigaram a gritar o nome de Assad, cena que era observada de maneira entusiasmada pelos oficiais russos e milicianos sírios armados.

Os mais calmos eram os mais velhos, muitos deles usando túnicas, que permaneceram sentados em bancos de madeira ao estilo árabe com um charuto ou um café na mão.

A celebração terminou quando os militares russos abriram os baús dos dois caminhões que trouxeram da base russa de Khmeimim em Latakia alimentos de primeira necessidade, de pão a biscoitos, sanduíches e farinha.

As crianças mais famintas não esperaram e devoravam rapidamente os sanduíches entregues pelos soldados russos, enquanto outros levavam a comida sobre suas cabeças para seus pais.

Apesar da aparência de miséria de Koukab, com casas que parecem barracos, havia incontáveis famílias, uma riqueza muito apreciada nesta parte do mundo.

A sensação de muitos repórteres foi de que o ato de reconciliação parecia pouco espontâneo, já que a grande maioria dos manifestantes eram crianças, e os terroristas não pareciam muito arrependidos de seus atos.

Apesar de os sírios terem recebido os estrangeiros de braços abertos, entre a imprensa era difícil crer que tenham saído espontaneamente às ruas de sua cidade com os cartazes nas mãos em defesa de Assad.

Um militar comentou com os repórteres que quase todos os sírios desejam que a paz volte para suas casas, após cinco anos de uma cruel guerra civil, e que poucos jihadistas querem continuar combatendo. /EFE

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