Pequena Síria, o coração do mundo árabe nova-iorquino

Bairro já existia décadas antes do World Trade Center

DAVID W. DUNLAP, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

Sinta-se, por um momento, num lugar a poucos passos da prefeitura da cidade, mas que é um mundo à parte. Salaam.

Sim, um aroma de café forte paira no ar, há figos doces e tortas de limão, doces que lembram os consumidos na sua infância em Damasco e Beirute. Os bazares repletos de tapetes artesanais, abajures de latão e narguilés. Homens usando típicos chapéus de feltro. Algumas mulheres se escondendo atrás do véu. Al-Hoda é o jornal popular. Nos letreiros das lojas - pelo menos os legíveis para quem não fala árabe, indicam "Rahaim & Malhami", "Noor & Maloof, ou "Sahadi Bros".

Não é o que poderia ser o Lower West Side de Manhattan se o tão debatido centro da comunidade islâmica fosse construído a dois quarteirões do local onde era o World Trade Center. Mas ele era assim décadas antes mesmo de se pensar na construção do World Trade Center.

Esta é a sua herança.

Quase perdida da memória e esquecida na atual controvérsia, Washington Street era "o coração do mundo árabe nova-iorquino", como descreveu The New York Times em 1946, pouco antes de essa comunidade árabe-americana ser quase que inteiramente desalojada pela construção das rampas de entrada para o túnel Brooklyn-Battery.

Claramente, este bairro chamado Little Syria (Pequena Síria) situava-se no lado sul do local onde foi erguido o World Trade Center, enquanto que o centro islâmico projetado ficaria ao norte. E os muçulmanos, principalmente originários da Palestina, constituíam 5% da sua população. A maior parte dos sírios e libaneses do bairro era cristã.

Mas vale a pena recordar as antigas paisagens, os sons e cheiros de Washington Street, uma lembrança de que em Nova York - uma cidade densamente superposta como uma baklava (doce árabe) - ninguém pode reivindicar expressamente nenhuma parte da cidade, e a história pode revelar figuras inesperadas em locais imprevistos.

Washington Street era "um enclave no novo mundo onde, no início, árabes mascateavam produtos, trabalhavam em oficinas como clandestinos, viviam em cortiços e penduravam as placas com suas inscrições nas lojas", escreveu Gregory Orfalea em The Arab Americans (Os árabes americanos). Entre essas pessoas estava a avó do escritor Nazera Jabaly Orfalea, que chegou a Nova York, vinda da Síria, em 1890.

"Ela deve ter passado pela Washington Street", disse ele numa entrevista. "Ela era mascate. Não tenho dúvidas de que era subvencionada por fornecedores em Washington Street.

Gregory Orfalea atribui a imigração de sírios, libaneses e palestinos à fome, ao caos, ao serviço militar obrigatório, à cobrança de impostos e à intolerância religiosa em seus países. E também ao proselitismo de missionários americanos, às dificuldades econômicas que os levaram para um mundo novo onde culturas coexistiam, às vezes conflituosamente, lado a lado.

"Os gritos em árabe das mães chamando seus filhos brincando na rua misturavam-se com os sons de jazz vindos de uma outra casa e o praguejar dos caminhoneiros a caminho das docas", escreveu Konrad Bercovici em seu livro Around the World in New York (A volta ao mundo em Nova York), de 1924, com um enfoque no assentamento grego vizinho, Little Athens (Pequena Atenas).

A Pequena Síria estabeleceu-se na área onde os irmãos Naoum e Salloum Mokarzel adaptaram a máquina tipográfica ao alfabeto árabe e criaram o jornal Al-Hoda (O Guia). Essa iniciativa "tornou possível e estimulou imensamente o crescimento do jornalismo árabe no Oriente Médio, escreveu The New York Times em 1948.

Mas a presença de uma "intelligentsia" no bairro não se tornou um baluarte contra os estereótipos. Uma briga no bairro em 1905 envolveu "sírios enlouquecidos", reportou o Times. "Através da luz tênue do bar e café podia ver-se o reluzir do aço nas mãos de 200 pessoas de tez escura."

Gregory Orfalea traça alguns paralelos com a atual polêmica. "Fracassamos ao tratar com o mundo árabe em termos racionais porque nós o reduzimos imediatamente à condição de irracional", disse ele.

Relatos históricos não descrevem a existência de mesquitas em Washington Street, mas havia três igrejas que atendiam os cristãos libaneses e sírios. A St. George Chapel ainda está de pé, na Washington Street. Pode ser o último vestígio da Pequena Síria. Hoje é a Moran"a Ale House e Grill. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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