China Daily/Reuters
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Pequim adota diplomacia do coronavírus

Com casos diminuindo, China monta blitz de ajuda a países, assumindo papel do Ocidente

Steven Lee Myers e Alissa Rubin, PEQUIM / REUTERS, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 05h00

O presidente da China, Xi Jinping, prometeu enviar médicos à Itália e 2 mil testes rápidos de diagnóstico de coronavírus às Filipinas. O governo da Sérvia pediu ajuda, mas não aos vizinhos europeus, que restringiam a exportação de equipamentos médicos, mas aos chineses. “A solidariedade europeia não existe”, disse o presidente sérvio, Aleksandar Vucic. “É um conto de fadas no papel. Acredito no meu irmão e amigo Xi Jinping e na ajuda chinesa.”

Algumas semanas atrás, a China foi devastada pelo surto de coronavírus, que começou na cidade de Wuhan. Pequim aceitou doações de máscaras e outros suprimentos médicos de quase 80 países e 10 organizações internacionais. Agora, com novos casos diminuindo, a China montou uma ofensiva diplomática para ajudar o restante do mundo, que luta para controlar o vírus. 

Do Japão ao Iraque, da Espanha ao Peru, os chineses prometeram ajuda humanitária, doações e informações médicas – o que dá à China a chance de se posicionar não como incubadora de uma pandemia, mas como ator global responsável em um momento de crise mundial.

Ao fazer isso, Pequim assume um papel que sempre foi do Ocidente em tempos de desastres ou emergências de saúde pública, espaço que o presidente Donald Trump cedeu com o isolamento cada vez maior dos EUA. “Essa pode ser a primeira grande crise global em décadas sem liderança significativa dos EUA e com protagonismo dos chineses”, disse Rush Doshi, diretor da China Strategy Initiative, do Brookings Institution, de Washington. 

O surto, que começou em Wuhan, infectou mais de 250 mil pessoas e já matou 11 mil em todo o mundo, foi um revés para a liderança de Xi, provocando descontentamento interno e questionamentos no exterior sobre a eficácia do Estado comunista. Mas agora falhas grotescas no enfrentamento da pandemia, tanto na Europa quanto nos EUA, deram à China uma plataforma para provar que seu modelo funciona – e, eventualmente, ganhar alguma tração geopolítica mais duradoura.

Como fez no passado, o Estado chinês usa suas ferramentas extensas e bolsos sem fundo para construir parcerias em todo o mundo, em comércio, investimentos e se consolidando como maior fabricante mundial de medicamentos e máscaras protetoras. A generosidade tem ajudado a aliviar a raiva de muita gente com a resposta ineficaz à pandemia. 

“Eu não sei e não me interessa de onde vem”, disse Michele Geraci, ex-subsecretário do Ministério de Desenvolvimento Econômico da Itália, quando questionado se a assistência refletia as ambições geopolíticas da China. Geraci disse que a questão mais urgente é fornecer ajuda para salvar vidas, algo que a União Europeia foi incapaz de fazer. “Se alguém está preocupado que a China esteja fazendo demais, o espaço está aberto a outros países”, disse.

Há muito tempo a China aspirava um papel maior na ONU e em outras organizações internacionais, buscando projetar sua influência política, econômica e militar em mais partes do mundo – muitas vezes em concorrência direta com os EUA. “A China está tentando reparar sua imagem internacional danificada no manejo incorreto do surto em Wuhan, em janeiro”, disse Minxin Pei, professor do Claremont McKenna College, na Califórnia. “Doar suprimentos médicos mostra que a China é uma potência mundial responsável e generosa. Pequim também está divulgando seu sucesso em conter o surto para sugerir que o regime de partido único é superior às democracias decadentes do Ocidente, em particular os EUA.”

Na quarta-feira, a China disse que forneceria 2 milhões de máscaras cirúrgicas, 200 mil máscaras especiais e 50 mil kits de testes para a Europa. “Somos gratos pelo apoio da China”, afirmou Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. “Precisamos do apoio um do outro em momentos de necessidade.”

Um dos principais empresários da China, Jack Ma, ofereceu 500 mil testes e 1 milhão de máscaras para os EUA, onde os hospitais enfrentam escassez, apesar de terem tido várias semanas para se preparar. Em fevereiro, os EUA transportaram 17 toneladas de suprimentos para Wuhan em quatro voos, que depois retiraram os americanos da cidade.

“Não é mais um desafio que um país pode resolver sozinho. Exige que todos trabalhemos juntos”, disse a fundação de Ma, em comunicado que listou doações para dezenas de países, incluindo todas as 54 nações da África. A declaração cita uma frase de Ma no Weibo, plataforma de mídia social, que sempre fez parte do léxico político americano: “Unidos resistimos. Divididos, seremos derrotados”.

As autoridades chinesas afirmam que a pandemia deve ser uma arena para cooperação política, não competição. Mas o sucesso em reduzir a propagação da doença encorajou autoridades e a mídia estatal a irem mais longe – às vezes, de maneira desajeitada. Um porta-voz da chancelaria, Zhao Lijian, apresentou uma teoria de que o Exército dos EUA estava por trás do vírus, enquanto outro funcionário bateu boca com o escritor peruano Mario Vargas Llosa sobre uma coluna que ele escreveu sobre a pandemia.

A mídia estatal também vem aproveitando o caos na Europa e nos EUA para demonstrar uma espécie de alegria discreta. Nesta semana, o Diário do Povo comemorou o fato de o ritmo de infecções e mortes no exterior ser agora maior do que na China. “A pandemia se tornou um campo de batalha”, disse Bruno Maçães, ex-secretário de Estado para Assuntos Europeus em Portugal, hoje membro do Hudson Institute. “Vejo a China focada em usar a crise como uma oportunidade para reproduzir a superioridade de seu modelo.”

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