Pequim lança seu canal em inglês

Agência oficial cria emissora de notícias 24 horas com a qual pretende projetar para o exterior uma imagem mais positiva

David Barboza, The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2010 | 00h00

A agência de notícias Nova China, principal serviço de notícias do país e braço de propaganda do Partido Comunista, lançou um canal de notícias 24 horas em inglês e prepara-se para abrir uma redação na Times Square, como parte de uma tentativa, cara, para aumentar o alcance e a influência dos meios de comunicação chineses no exterior.

Numa entrevista coletiva na quinta-feira, o presidente da agência Li Congjun disse que o CNC World, canal de notícias 24 horas, faz parte de um esforço do governo para "apresentar uma visão internacional com uma perspectiva chinesa".

Essa é a mais forte indicação de que a China pretende gastar bilhões de dólares nos próximos anos para criar um império de mídia global que se compare ao poder diplomático e econômico crescente do país e projete eficazmente suas opiniões a uma audiência internacional.

Há muito tempo as autoridades em Pequim queixam-se de que a China é retratada de maneira negativa pela mídia ocidental e uma cobertura que consideram tendenciosa tem afetado os interesses do país no exterior.

O novo canal, cujo modelo seria a rede de notícias árabe Al-Jazira, deverá oferecer uma ampla cobertura dos assuntos mundiais e, ao mesmo tempo, explicar temas considerados importantes pelos líderes chineses numa perspectiva que os produtores dos programas entenderem apropriada. Para analistas, a expansão global dos serviços noticiosos chineses é surpreendente, porque muitas gigantes do setor, por causa de uma forte queda nas receitas de publicidade, estão reduzindo suas operações, fechando escritórios e demitindo jornalistas.

"Enquanto nossos impérios de mídia derretem como os glaciares do Himalaia, os da China estão se expandindo", diz Orville Schell, diretor do Centro de Relações EUA e China, na Asia Society, em Nova York, e ex-diretor da faculdade de jornalismo na Universidade da Califórnia, em Berkeley. "Eles querem obter todos os selos de confiabilidade do mundo do jornalismo e manter uma sede em Nova York, um local emblemático, faz parte dessa aspiração."

Na quinta-feira, um funcionário da Nova China, que pediu para não ser identificado, disse que a agência planeja abrir um escritório no topo de um arranha-céu de 44 andares na Times Square, mesma região em que estão a Reuters, a Editora Condé Nast e The New York Times. A decisão da Nova China inclui-se numa série de iniciativas planejadas por Pequim. A China Central Television, maior rede estatal de TV do país, vem se expandindo para o exterior, oferecendo programas em inglês, espanhol, francês, árabe e outras línguas.

Não há garantias de que esses serviços de notícias estatais financiados e controlados por Pequim consigam atrair uma grande audiência internacional ou obter receitas substanciais no exterior. Para muitos especialistas do setor de mídia, embora os canais de notícias da China estejam progredindo, ainda não oferecem uma informação objetiva e confiável e são considerados veículos de propaganda do governo chinês.

Há anos fala-se que algumas agências de notícias chinesas estão estreitamente ligadas aos serviços de inteligência do país. A Nova China foi inaugurada em 1931 como Agência de Notícias da China Vermelha, antes de o Partido Comunista chegar ao poder, em 1949.

A Nova China divulga boletins do governo e comunicados oficiais para os membros do Politburo, além de continuar estabelecendo a pauta para outras publicações chinesas bastante censuradas. Na quinta-feira, ao anunciar o lançamento do novo canal de notícias, a agência indicou que espera oferecer "uma visão mais positiva da China para os telespectadores internacionais" e pretende fazer isso por meio de noticiários em língua inglesa, programas de entrevistas e reportagens mais minuciosas, com análises em profundidade.

A agência chinesa já tem mais de 10 mil funcionários e 120 escritórios em todo o mundo, rivalizando, em termos de alcance ? mas não de qualidade ?, com serviços de notícias internacionais, como a Reuters ou a Bloomberg. A Nova China já começou a recrutar jornalistas não chineses de todo o mundo para colaborar com seu serviço de notícias.

Orville Schell, da Asia Society, diz que Pequim está pretendendo seriamente apresentar suas agências de notícias como uma alternativa confiável para os órgãos de informação internacionais. "Apesar dos esforços hercúleos, eles não acham que estão sendo levados a sério; a Nova China não está no mesmo nível em termos de confiabilidade", disse Schell. "Mas ainda estamos longe da próxima etapa, quando eles se apoderarem de empresas debilitadas do mundo da mídia global." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM XANGAI

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